Não há nada mais sufocante do que a impotência e o sentimento de culpa do ser humano diante de tragédias da vida. Sobretudo, o estresse de pais diante da insegurança do mundo para seus filhos e de terem falhado com eles como figuras que deveriam prover e proteger.
É sob o olhar intimista das ansiedades de um casal interpretado por Rosamund Pike e Matthew Rhys que o diretor Babak Anvari escolhe ancorar completamente a narrativa Hallow Road. Com uma abordagem minimalista em uma história que se passa quase que completamente dentro de um carro, acompanhamos esse casal de personagens à procura da filha, que supostamente teria atropelado uma pessoa acidentalmente ao dirigir à noite em uma estrada. Tudo isso após sair abalada da casa dos pais após uma briga quando revelou que estava grávida.

Matthew Rhys as Frank and Rosamund Pike as Maddie in Hallow Road, directed by Babak Anvari.
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Esta ambientação dentro do carro valoriza a competente atuação de Pike e Rhys. Ambos são captados sempre em planos fechados com a ação concentrada em torno de uma ligação, de modo a aproveitar a tensão da situação, nunca mostrando nada além do casal no carro. A gradual descoberta a respeito do paradeiro da filha enquanto conversam com ela ao telefone constrói uma tensão constante e uma narrativa sempre pulsante.
Nesse sentido, as reações dos pais e os diálogos deles entre si e com a filha, dividindo e disputando a atenção dela, compõem uma dinâmica instigante de acompanhar. Maddy (Pike) é sempre a que se preocupa mais com as responsabilidades e consequências das ações da filha, enquanto Frank (Rhys) é aquele que passa a mão na cabeça da filha e pensa naquilo que seria melhor para o futuro dela. O contraste entre o casal gera um embate que discute questões de responsabilidade, dever social, empatia e traumas.
Se a fotografia com alto contraste, iniciando com uma luz amarela forte e bem uniforme transmite a sensação de alerta e atenção, a migração para um azul gélido expõe a melancolia na qual os personagens se encontram, não só pela situação enfrentada no momento, como também em relação a toda dinâmica familiar que os levou até aquilo. Destaque simbólico para o impacto do vermelho refletido no rosto deles quando param diante de um sinal na estrada, exatamente em um momento de decisão importante na trama.
Quando o carro de um outro suposto casal chega até a filha, um novo conflito se estabelece sobre como evitar ou encobrir a reponsabilidade da filha sobre supostamente ter matado uma outra garota. A curiosa decisão do filme de fazer as vozes desse casal estranho serem as mesmas de Maddie e Frank colocam o espectador em uma reflexão sobre a ambiguidade da situação vista em tela. É aí que Hallow Road mostra seu caráter alegórico, em que os personagens parecem enfrentar versões mais rígidas e menos empáticas de si mesmos, o que parece indicar uma interessante autoavaliação subtextual por parte dos personagens.
Realmente apenas “parece”, porque, apesar de esse ser um dos elementos mais interessantes do longa, essa dualidade nunca é bem desenvolvida e não chega perto de atingir todo potencial. Por alguma razão, as interações entre Maddie e a sua suposta outra versão carecem de profundidade, bem como as intenções desse outro casal nunca são esclarecidas. A mulher misteriosa também fala de uma maneira sempre muito empostada, quase como se fosse uma entidade falando, mas nada é explicado a respeito da natureza dessas figuras. Há uma alusão a ritos pagãos feitos na floresta, mas é apenas isso, uma menção.
Nesse sentido, Hallow Road parece flertar com elementos sobrenaturais, mas não chega a lugar algum com isso. A conclusão pode ser bem frustrante por ser abrupta e bem mais simples do que se poderia esperar, sendo expositiva demais nos minutos finais para o que se pretendia ser uma obra aberta e enigmática.
Em resumo, é uma instigante obra psicológica sobre a culpa de pais em relação à inevitabilidade trágica da vida e suas projeções sobre o que gostariam que seu acontecimento trágico tivesse sido, mais do que sobre um mistério a ser resolvido. Tanto em uma quanto em outra camada, Hallow Road poderia ser bem mais orgânico do que é.













