Existem histórias reais que são tão inacreditáveis e absurdas que parecem ficção. Mesmo que a realidade seja dura, é importante que elas sejam contadas para conscientizar, refletir e motivar as pessoas. É o caso de Belén: Uma História de Injustiça, drama jurídico profundo e necessário sobre as deficiências da justiça e da luta feminina. Comovente e chocante, a trama impressiona com a sua seriedade e sensibilidade.
De início, Belén já começa de forma crua e angustiante, mergulhando o espectador no drama de Julieta (Belén), seja no atendimento no médico até quando é presa, acusada de cometer infanticídio por vínculo. A fotografia é gélida e escura, tornando o ambiente hospitalar desolador e inquietante. É um começo que sintetiza com primor uma dura realidade e o princípio de uma caminhada árdua em busca pela justiça.
Como dito anteriormente, o caso de Belén realmente aconteceu e foi contado através do livro Somos Belén, da jornalista Ana Correa. O roteiro se preocupa em tornar o assunto pertinente e de fácil absorção para o público, apesar dos temas difíceis. O objetivo é evidenciar um fato e a partir dele gerar debates e reflexões. Não é apenas contar uma história, mas sim perpetuar a mensagem e torná-la um símbolo de resistência e perseverança. Belén: Uma História de Injustiça mostra como toda essa história gerou uma enorme mobilização social, incluindo a participação do movimento Maré Verde, a favor da descriminalização do aborto. A repercussão do caso escancarou diversas deficiências da sociedade que se interligam entre si, como o aborto, desigualdade social, saúde pública e um sistema judicial falho.
A cada cena que passa, o sentimento de indignação toma conta da narrativa. Pode até parecer um caso isolado de uma realidade invisível, mas a situação da protagonista acontece com frequência. O aborto é um tópico muito sensível, pois envolve saúde pública, direitos das mulheres e também desigualdades sociais. Muitas mulheres podem se enxergar na figura de Belén e isso constrói um impacto emocional muito grande. O importante do filme é que ele não se limita a um assunto, mas usa ela para abordar outras questões. Ainda por cima, Belén: Uma História de Injustiça é contundente ao cutucar essas feridas sem parecer ácido, mas sim ter o máximo de cuidado, seriedade e responsabilidade. Tudo flui de forma natural e orgânica, ressaltando mais o peso dos diálogos e das interações dos personagens. A cena em que a advogada Deza vai ao programa para adquirir apoio à causa de Belén também debate a disseminação de informações tendenciosas como forma de manipulação das massas.
Com um comportamento bem visceral, a narrativa mantém a todo o momento o pé no chão. Essa condução é bem similar a outro filme argentino, o aclamado Argentina 1985 no sentido de causar uma sensação de urgência e atenção ao tema apresentado. O roteiro é engajante, acentuando bem todos os passos das inconsistências das investigações e também a crescente tensão envolvendo a expectativa da libertação de Belén.
Além disso, pela história ser dirigida e escrita por mulheres, existe uma força e sensibilidade enorme no texto. A diretora Dolores Fonzi, também intérprete da advogada Deza, impõe presença imprescindível, tanto na frente como atrás das câmeras. Sua direção é potente e eficaz, dosando bem o tom dramático com os mais sentimentais. Apesar da sobriedade, ela consegue construir um clima de expectativa fantástica até recompensar o público com uma resolução satisfatória.
Em relação à sua personagem, a advogada Deza segura bem o protagonismo, com uma personagem determinada e corajosa. O seu arco pessoal é interessante, porém não é muito explorado. Existe uma questão envolvendo a religiosidade, servindo para dar uma humanidade a ela, mas não é muito desenvolvida, parecendo avulsa dentro da trama.
Incisivo e fundamental, Belén: Uma História de Injustiça é um manifesto por justiça, na verdade, soa mais como um grito por justiça. Um filme incrível, reforçado pela luta de mulheres que juntas transformam uma batalha judicial em um movimento social. A Argentina está em boas mãos com seu representante do Oscar 2026.














