Maybe this time I’ll be lucky, maybe this time…Oops, essa não é a vez da rainha do cabaret, mas sim do nosso rei da noite. Há 50 anos, Héctor Babenco fazia sua brilhante entrada na sétima arte com retrato atemporal da crueldade masculina.
“O Rei da Noite” conta a história de Tertuliano (Tezinho, para os íntimos), um boêmio que, impedindo de viver o seu grande amor por Aninha devido a doença da mesma, embarca numa jornada de destruição na vida de toda as mulheres com qual se envolve, além da sua própria. É o retrato da degradação moral em prol das aparências.
O argentino naturalizado brasileiro, fez sua estreia nas telonas no ano de 1975, com uma história autoral, quase folhetinesca e sem saber nada de cinema, como o próprio afirmou em uma entrevista para o jornal Folha de São Paulo, em um artigo intitulado “Meu Primeiro Filme”, que contou com depoimentos de outros cineastas brasileiros. Babenco até podia não ter técnica alguma, mas isso não o impediu de debutar com os dois pés na porta.
Babenco conta que a ideia surgiu a partir de seu olhar da modernização da cidade de São Paulo no meio da década de 70, contrastando com a decadência das gerações passadas e seus relacionamentos azedos. Tertuliano é a síntese desse boêmio, mimado desde a infância e que pensa que o mundo está aos seus pés. Ele é cruel e obsessivo, mas não totalmente incapaz de amar. Sua paixão por Aninha perdura até a velhice, mas enquanto não pode vivê-la, usa como lhe convém e maltrata cada uma delas que passa pela sua vida, a seu bel prazer.

Essa jornada de Tezinho até sua velhice – sim, o filme corta pra época atual e ele aparece idoso ao final, um recurso em alta, como vimos recentemente em “Ainda Estou Aqui” (2024) e “O Agente Secreto” (2025), mostra o vazio de um homem inconformado com aquilo que não pode ter e o seu comportamento destrutivo alimentado pelo seu ego é o reflexo daquele centro urbano decadente que Babenco se inspirou ao criar a história. O rei da noite, nascido de berço esplêndido que caiu numa espiral de degradação moral, vícios e aparências.
Paulo José dá vida ao rei da noite, e carimba o cinema mundial como uma das grandes interpretações já feitas. Seu Tezinho é execrável, mas sinceramente, você não consegue odiá-lo completamente. Ele tem um certo carisma, e não a toa, conquista todas as mulheres a quem deseja. Vic Militello também brilha como a esposa de Tezinho, há quem ele só se une pois precisa se casar. A forma que ela se humilha para o esposo é triste, ao ponto de que Babenco consegue dar um tom cômico que não pesa o clima, especialmente quando ela decide traí-lo e Tertuliano se vinga imediatamente – e lembre-se desse entrecho, pois é ele que leva Tezinho de volta ao seu grande amor.

Marília Pêra também já era uma estrela consagrada na época, e Babenco conta que só chegou até ela por intermédio de Paulo, a quem já conhecia. Marília é uma das maiores atrizes que o país já viu e obviamente ela dá um show como a Rainha da Noite, Pupi, uma argentina (assim como o diretor), cantora de cabaré e profissional do sexo, praticamente uma Sally Bowles dos trópicos. Nessa entrevista para a Folha, Babenco conta que a atriz sinalizou seu despreparo: “Você está muito aquém do que eu esperava de um diretor. Você é muito jovem e ainda não sabe dirigir ator”. Não querendo questioná-la, obviamente, mas acho que pra uma primeira viagem, Babenco soube extrair exatamente o que precisava de cada um em tela. São atuações melodramáticas na medida em que ele idealizou a história e a forma em que queria fisgar a audiência. É como ver uma novela na telona. Ele respondeu a crítica com condescendência, que da próxima vez fariam um trabalho melhor. “É tudo o que eu espero”, disse Marília. O próximo trabalho juntos foi Pixote, a lei do mais fraco (1980). Ponto final.
Na época de seu lançamento, foi um sucesso comercial. Héctor conta que a liga do Cinema Novo o rechaçou e detestou o filme, por considerá-lo comercial demais. Pura pretensão (e inveja, talvez). O Rei da Noite é uma obra empolgante, ainda que sem grandes riscos narrativos e estéticos. Nem todo mundo precisa começar reinventando a roda. Às vezes só precisamos dar aquilo o que o público quer.

E ao final – aqui vai um pequeno spoiler. Não disse que Tezinho dela seu destino ao se livrar da esposa? Ao ser preso, passa 15 anos na cadeia, saindo já idoso e sem perspectiva e vitalidade para ser o rei da noite, torna-se um daqueles homens- sanduíches que inspiraram Babenco a desenvolver essa história. Pois bem, Tezinho termina seus dias num asilo, ao que coincidentemente, chega Aninha, também já idosa e que sobreviveu à sua enfermidade. Ele claramente reconhece a sua amada, que não a via há pelo menos uns 30 anos. Ele finalmente pode viver o amor que tanto sonhou. Final feliz. Não que seja o objetivo do filme, mas como ainda vemos hoje em dia, dificilmente homens desse tipo são castigados. É um eterno clube dos bolinhas.
Há 50 anos, o objetivo de Babenco era atingir a massa, ao mesmo tempo em que criava um objeto de estudo que futuramente serviria para lapidar suas habilidades. Para quem não sabia nem que existia mais de um tipo de lente, Héctor atinge seu objetivo em cheio: um sucesso de público, uma história envolvente e bem conduzida que não deixa escapar sua inexperiência.
“Foi o filme que me deu a certeza de que eu era capaz de fazer cinema. O grande saldo, para mim, foi esse. O Rei da Noite representou para mim a certeza de que eu era capaz. Ele não me envergonha em nada. As pessoas viram, gostaram, ele gerou polêmica. Acho que com ele entrei no cinema brasileiro com o pé direito.”












