A Mulher Mais Rica do Mundo parece apostar no prazer básico que temos ao ler as fofocas dos ricaços na coluna social. O problema é que, mesmo se visto por esse ângulo, não há nada que conquiste a nossa imaginação, pobre plebe que somos; nada de muito espetacular na apresentação do mundo resplandecente de seus personagens. Há apenas as picuinhas de sempre quando o assunto é dinheiro.
Marianne (Isabelle Huppert) é a manda-chuva da empresa de cosméticos herdada do pai. Ela entra na mira de um fotógrafo trambiqueiro (Laurent Lafitte), Pierre-Alain, que ama o glamour e as coisas finas da vida. Esse é o mote, mas o filme leva um tempo até que suas engrenagens comecem a girar e a trama de fato ganhe um foco: a sedução de Pierre-Alain à Marianne e sua infiltração no círculo íntimo da ricaça.
Nesse meio-tempo, o que temos é um marasmo total. A Mulher Mais Rica do Mundo mira no glamour, mas tem toda a pinta de telenovela de 20 anos atrás: o mesmo visual flat, as mesmas escolhas básicas, o mesmo estilo enlatado. Daí a escolha do filme pelo formato das entrevistas falsas, entremeadas ao longo da trama: não só elas dão uma cara de true crime ao caso (mais sobre isso depois), como são uma tentativa destrambelhada de dotar a narrativa de alguma propulsão dramática, por meio da promessa de que o final dessa história não será dos mais felizes.
Até aqui, o que temos? Um filme que não está interessado em articular qualquer ideia ou explorar qualquer tema que seja. Pior: tampouco lhe interessa servir de puro espetáculo. E, de todo modo, em meio a essa penúria neoliberal, quem se importa com a vida dos ricos senão os próprios ricos?
O sucesso do filme na França imediatamente desmantela meu argumento: mais de 800 mil pagantes nas salas de cinema. Como? A resposta é simples: o filme é inspirado num caso que marcou os tabloides franceses da década passada.
Françoise Bettencourt, filha da dona da L’Oreal, Liliane Bettencourt, levou o fotógrafo François-Marie ao tribunal. Ela acusava-o de explorar o estado frágil de sua mãe idosa para obter benefícios financeiros. Por meses a fio, o público acompanhou atentamente os desenlaces da história, até a condenação final de François-Marie e seu namorado.
Eis não só o motivo do sucesso do longa, como também sua razão de ser. Trata-se da mera reconstituição fictícia de um caso famoso, com o bônus da presença de uma estrela, Huppert, fazendo seu velho número de mulher poderosa que, a essa altura, é capaz de executar dormindo. Para nós brasileiros, que estamos pouco nos lixando para essa pataquada toda, A Mulher Mais Rica do Mundo não poderia parecer mais despropositado.
Apenas Lafitte, no papel do típico malandro que conhecemos tão bem nestes tristes trópicos, injeta um pouco de vida ao affair. Mas não é o bastante: como o filme se contenta em ser apenas funcional, o tédio é o resultado imediato. Está aí um exemplo de obra que se perde na tradução.














