A Copa do Mundo sempre foi um evento amado pelo brasileiro. A mania de completar o álbum de figurinhas bem como o sentimento empolgante de torcer trazem a união para celebrar o futebol, capaz de construir identidade cultural e orgulho para o país. Brasil 70: A Saga do Tri, da Netflix, é uma carta de amor ao nosso futebol, relembrando uma das vitórias mais antológicas da Seleção brasileira. Entre exageros e sentimentalismos, a produção ressalta a sensação contagiante e a conexão única entre as pessoas e o esporte.
Em uma cena, a câmera transita entre vários núcleos familiares e suas preparações para assistir uma partida de futebol igual um ritual. A dedicação de acompanhar cada partida, vibrando com um gol ou reclamando do adversário, ilustram esta paixão. Esse espírito brasileiro é retratado de forma veemente e até exacerbada em alguns momentos.
A minissérie orbita entre três figuras centrais: Pelé, o ex-técnico e jornalista João Saldanha e Zagallo, técnico da seleção campeã de 1970. Em relação ao Rei do Futebol, o camisa 10 traz o arco do herói tradicional em busca de reaver seu prestígio. As vulnerabilidades, o peso do legado, o tom conciliador do time, a fé e a utilização da imagem para fins políticos estão presentes no roteiro. É a humanização do símbolo, que também sintetiza o povo brasileiro, de luta e esperança. O ator Lucas Agrícola entende a responsabilidade em torno de Pelé com semelhanças físicas e timbre de voz que ajudam muito na imersão da interpretação.
Interpretado de forma brilhante por Rodrigo Santoro, Saldanha representa o cronista de esportes, carregando intensidade afiada e personalidade forte. Ele traz consigo as questões políticas como a demissão do cargo de treinador às vésperas da Copa. O ator transmite bem a luta de João contra o sistema bem como o seu amor pelo futebol. Contrastando com esse perfil, o Zagallo de Bruno Mazzeo segue uma linha mais metódica e supersticiosa, dedicado à estratégia de campo. A rivalidade dos dois dá boa tensão para a trama.
Por outro lado, apesar da grandiosa geração de craques, Brasil 70: A Saga do Tri pouco aproveita estes personagens. Tostão e o goleiro Félix são os únicos que ganham dilemas internos dos coadjuvantes – no caso do atacante, a luta para entrar no time oficial, enquanto o camisa 1 busca dar orgulho para a filha. Os demais não recebem o mesmo tratamento. Os conflitos entre eles não são tão aprofundados. Por outro lado, a minissérie não se esquiva de entrar no contexto político do país com a seleção sendo usada como propaganda política da ditadura militar. Existe uma montagem paralela que acentua isso com planos na seleção cantando o hino e nos fuzis dos soldados. A dualidade estabelecida dá nuances para a história entre o ufanismo e o temor do regime.
A mistura entre elementos ficcionais com a realidade tem um bom equilíbrio. Para construir uma emoção imagética e genuína, a produção esbanja uma linguagem cinematográfica riquíssima. A montagem causa ansiedade e apreensão como se fosse uma partida em tempo real. Takes panorâmicos mostram a imensidão do campo assim como mira as expressões dos jogadores. A variedade de ângulos e o slow motion também dão um escopo de tensão e expectativa. Os filtros de filmagens antigas oferecem um visual de registro histórico e intimidade.
Quando a minissérie disserta sobre a traumática derrota do Brasil na final da Copa de 1950 contra o Uruguai e os “fantasmas” de enfrentar o time novamente na semifinal em 1970 alcança um peso dramático excepcional. Contudo, Brasil 70: A Saga do Tri exagera ao criar uma atmosfera sobrenatural para construir a aflição antes da partida. A partida com os hermanos é repleta de energia e suspense, numa espécie de recuperação da honra perdida.
Relembrando aquele sentimento nostálgico de acreditar e torcer pela Seleção brasileira, Brasil 70: A Saga do Tri é uma comemoração da história do futebol nacional no seu auge. Também é um respiro de esperança e um símbolo de resistência e união em tempos difíceis. Por mais que soe exagerado em alguns momentos, é um lembrete da perseverança, da força e da essência do povo brasileiro.















