Caio Pimenta analisa as chances de Wagner Moura em Melhor Ator no Oscar 2026 após a vitória de Michael B. Jordan no Actors Awards.

MICHAEL B. JORDAN EM ASCENSÃO

Em janeiro, eu falei aqui no Cine Set que considerava a vitória do Timothée Chalamet cravada em Melhor Ator. Nada como um dia após o outro para me fazer morder a língua: o astro de “Marty Supreme” viu toda a força dele esfarelar ao longo das últimas semanas.

Depois de iniciar a corrida muito bem ao levar o Globo de Ouro e o Critics Choice, Chalamet sofreu uma série de duros golpes: primeiro no Bafta ao perder para Robert Aramayo, de “I Swear”, e, agora no Actors Awards para o Michael B. Jordan, de “Pecadores”. 

O resultado do último domingo embola a disputa definitivamente: a última vez em que o ganhador de Melhor Ator no Oscar não venceu nem o SAG e o Bafta foi com o Sean Penn, de “Sobre Meninos e Lobos”, na edição de 2005.   

Inegável como o Michael B. Jordan se fortalece demais em Melhor Ator pelo fato de “Pecadores” também crescer no momento ideal. Se o recorde das 16 indicações ao Oscar já mostrava o prestígio do filme, a vitória em Melhor Elenco no Actors Awards consolidou a impressão. É um momento tão forte que até mesmo ameaça o então favoritismo absoluto de “Uma Batalha Após a Outra”. 

Caso “Pecadores” consiga a improvável virada no Oscar máximo, Michael B. Jordan poderia se beneficiar desta arrancada. Neste século, os vencedores de Melhor Ator participaram do ganhador de Melhor Filme: Kevin Spacey, de “Beleza Americana”, Russell Crowe, por “Gladiador”, Colin Firth, por “O Discurso do Rei”, Jean Dujardin, de “O Artista” e Cillian Murphy, por “Oppenheimer”. 

O astro de “Pecadores” pode se beneficiar ainda da experiência em comparação com Timothée Chalamet: Michael B. Jordan está com 39 anos contra 30 do astro de “Marty Supreme”. Em uma categoria famosa por prestigiar estrelas mais velhas, é uma vantagem que pode ser considerada pelos votantes, mesmo que esteja apenas na primeira indicação contra a terceira do adversário. 

OS EMPECILHOS DE MICHAEL B. JORDAN

Isso não significa, entretanto, que a história do Oscar sempre jogue a favor da estrela de “Pecadores”. 

Fredric March, por “O Médico e o Monstro” em 1932, e Anthony Hopkins, por “O Silêncio dos Inocentes”, em 1992, foram as únicas vezes em que atuações vindas de filmes de terror ganharam a categoria na Academia.  

Ano passado, por exemplo, mesmo com toda narrativa a favor dentro dos EUA, inclusive, com vitória no SAG, Demi Moore bateu na trave com “A Substância”. A Academia optou por Mikey Madison, de “Anora”, filme mais palatável para o gosto médio da entidade.  

E ainda há o fato da possibilidade de Amy Madigan ganhar em Atriz Coadjuvante com “A Hora do Mal”. Logo, a Academia será tão moderna assim para premiar duas atuações vindas do terror na mesma temporada? 

A ÚLTIMA ESPERANÇA DE CHALAMET

Apesar do momento bem complicado, descartar Timothée Chalamet me parece bastante temerário. Para quem imaginava ter uma temporada consagradora sem sobressaltos, as derrotas no Actors Awards e Bafta foram pesadas demais. Ainda assim, há caminhos para o astro sonhar com a estatueta. 

Se “Pecadores” dilui, em certos momentos, o protagonismo de Michael B. Jordan, dando importância para todos os demais personagens terem seus momentos de destaque, “Marty Supreme” é todo de Timothée Chalamet. Do início ao fim, o astro está em cena, movimentando a trama com uma intensidade absurda.  

O fato de ter batido na trave em 2025 com “Um Completo Desconhecido” pode favorecê-lo na narrativa de mostrar a regularidade de um dos atores mais consistentes da nova geração. Ser a terceira indicação pode ajudar também contra a primeira de Jordan.  

A sensação, porém, é que o Timothée Chalamet precisa de uma mudança significativa na temporada para conseguir virar o jogo. Pode até acontecer, mas, as resistências contra ele e “Marty Supreme” parecem bastante sólidas para reverter qualquer possibilidade de isso ocorrer. 

Quanto ao Ethan Hawke e o Leonardo DiCaprio, se não venceram nada até aqui em todas as oportunidades que tiveram no Bafta, Actors Awards, Globo de Ouro e Critics, me parece improvável que vão ganhar no Oscar. 

A ESPERANÇA DE WAGNER MOURA

E quem disse que o Wagner Moura não tem chances de vencer o Oscar 2026 de Melhor Ator? O cenário é difícil sim, improvável, mas, não impossível para a estrela de “O Agente Secreto”. 

 A vitória de Robert Aramayo no Bafta contra quatro indicados ao Oscar abre espaço para acreditar que o baiano possa ganhar território junto a ala britânica. Uma campanha mais forte nesta reta final de votação, algo que não houve para o evento no Reino Unido, aproveitando a estreia de “O Agente Secreto” no país, pode levar a obter preciosos votos. 

Wagner ainda deve contar com o apoio massivo da comunidade latina e de outros países europeus como a França, onde o candidato brasileiro foi muito bem. O brasileiro pode também se beneficiar dos asiáticos e africanos, além de buscar um crescimento nos últimos minutos nos EUA. A estrela de “O Agente Secreto” foi entrevistada nesta segunda-feira pelo apresentador Jimmy Kimmel no tradicional talk-show na ABC, bem nos últimos momentos da votação. 

A Neon deve trabalhar em duas frentes: a primeira será aproveitar o cenário de incerteza na categoria após a queda de Chalamet, inclusive, obtendo votos que inicialmente iriam para o ator de “Marty Supreme”, mas, que hoje, estão no ar; e a segunda é tentar crescer entre aqueles que até gostam de “Pecadores”, mas, acham exagerada a conquista de Michael B. Jordan em Melhor Ator.  

De qualquer maneira, Wagner hoje é a terceira força da categoria com potencial para virar a segunda, caso Timothée Chalamet esteja mesmo afundando. Diferente de Ethan Hawke e Leonardo DiCaprio, o astro brasileiro chega com duas vitórias importantes – Festival de Cannes e Globo de Ouro – contra nada dos protagonistas de “Uma Batalha Após a Outra” e “Blue Moon”. 

Uma vitória de Wagner Moura é improvável sim, mas, não impossível.