Seis anos separam Vingadores: Ultimato, o último suspiro criativo da Marvel, de seu primeiro lançamento de 2025, Capitão América: Admirável Mundo Novo. A impressão é de que, desde então, muitas coisas mudaram e a fórmula de sucesso não tem mais funcionado, deixando a sensação de que não só o espectador cansou do formato, como o estúdio, até o momento, não conseguiu oferecer grandes trabalhos na introdução de novos personagens ou gerar impacto em suas histórias.
A pausa estratégica de 2024 (quase sabática) para tentar retomar o rumo do sucesso e chamar novamente a atenção do público para seu universo de heróis, na prática, não funcionou neste retorno. O quarto filme focado no personagem dá continuidade à jornada de Sam Wilson (Anthony Mackie), que deixou a identidade do Falcão após Ultimato para assumir o posto de Capitão América.
Aqui, ele vê Thaddeus Ross (Harrison Ford, substituindo o saudoso William Hurt, que interpretou o papel em O Incrível Hulk), eleito presidente dos Estados Unidos, em uma disputa política pela Ilha Celestial, que concentra o principal recurso natural do momento: o adamantium. Após o presidente sofrer um atentado pelas mãos de Isaiah Bradley (Carl Lumbly, o “Capitão América esquecido”, apresentado na série Falcão e o Soldado Invernal), Sam embarca em uma missão para provar a inocência do amigo e descobrir quem está por trás do conflito político.
Um filme à sombra do passado
Admirável Mundo Novo é um filme assombrado pelo passado. Tenta emular Soldado Invernal (o melhor filme do personagem e um dos melhores do universo) com sua trama conspiratória, mas sem sucesso, ficando na superfície do foco político e conspiratório do citado.
O próprio tom do thriller de espionagem segue claramente os conceitos de lavagem cerebral de Sob Domínio do Mal (de John Frankenheimer, sobre a Guerra Fria), só que sem a mesma execução, sendo alimentado por uma história fraca, onde o roteiro, escrito por cinco pessoas (!), repete as mesmas ideias, conceitos e dilemas já vistos tanto em Soldado quanto em Guerra Civil. Além disso, o texto está repleto de diálogos didáticos e explicações excessivas, que transmitem a sensação de que tudo é tão artificial ou elaborado por IA que só escondem a fragilidade da história.
Se em Soldado Invernal tínhamos um filme coeso, que estruturava personagens, histórias e subtramas dentro da mitologia do herói, a partir de um filme de espionagem que mostrava o herói em um mundo do qual não fazia mais parte, onde os valores, a ética e o significado de liberdade adquiriram características cinzentas, Admirável Mundo Novo tem uma trama política esvaziada, na qual falta firmeza em trabalhar seu discurso — claramente uma crítica à ideologia totalitária, com ecos trumpistas e bidenianos — e mostra que toda a reflexão/comentário politizado se esvazia para dar lugar à mesma fórmula burocrática.
É também nítido que as regravações de cenas e mudanças de cortes, conforme noticiado pela imprensa, deixaram o filme com uma série de retalhos entre o filme político e o thriller de espionagem, o que impacta na história, na narrativa e no desenvolvimento dos personagens. Os arcos dramáticos de Sam e Ross soam forçados ou vazios.
A direção de Julius Onah, do pavoroso Paradox Cloverfield, é travada, tanto na ação genérica quanto na montagem desconjuntada. Não vou negar que até gosto da forma como ele se sai nas sequências em cenários abertos (a primeira cena de ação é bacana e divertida de acompanhar), mas tudo o que envolve ambientes fechados é de uma falta de personalidade tremenda, caracterizada por momentos picotados e escuros a ponto de se tornarem incompreensíveis. Confesso que tenho ficado assustado com o descuido tremendo da Marvel na área de efeitos visuais, algo que fica evidente aqui na vergonhosa maquiagem/efeitos do vilão principal da história, vivido por Tim Blake Nelson.
Elenco e personagens para salvar o filme
Se há algo de valor em Admirável Mundo Novo, é o carinho que os personagens e o elenco transmitem ao público. Existe um leve verniz de admiração na trajetória deles, o que faz as boas performances dos atores nos envolver, por completo, nos conflitos políticos mais do que a trama em si.
Gosto dos arcos dramáticos — mesmo repletos de irregularidades — de Sam Wilson e de Thaddeus Ross. Do primeiro, é interessante vê-lo já seguro de assumir o escudo do Capitão América, algo que não acontecia na série do Disney+. Em Admirável Mundo Novo, ele é o herói digno de abraçar o fardo e sustentar o legado de Steve Rogers, mesmo sem ter superpoderes. Mackie, ainda que não possua o carisma de Chris Evans, segura bem as pontas, apresentando Wilson repleto de humanidade e determinação.
Por sua vez, Harrison Ford é uma boa inserção: um ator sempre carismático, ele sabe, com sua experiência, humanizar as emoções latentes de seu coronel, e agora presidente, ao mostrar Ross como uma persona autônoma lidando com suas ações totalitárias do passado e tentando cicatrizar velhas feridas, especialmente na relação com a filha, Betty (Liv Tyler). Pena que o arco do personagem, repleto de boas ideias, pouco rende, já que o roteiro o insere em uma conspiração boba, que serve de muleta para o aparecimento do Hulk Vermelho, com o intuito de gerar um momento de pancadaria no ato final e transformar Ross em um boneco descartável.
A nova “Viúva Negra”, interpretada por Shira Haas, é uma atriz de estatura baixa, mas com um rosto expressivo, e se sai bem nas cenas de ação. Juntamente com Danny Ramirez (que, de ajudante na série, virou Falcão), no papel de alívio cômico interpretado por Joaquin Torres, ambos se revelam aquisições interessantes para a saga cinematográfica. Os desperdícios ficam por conta de Isaiah Bradley, tão bem inserido na série, que aqui perde completamente sua essência dramática, e do vilão interpretado por Giancarlo Esposito, que aparece e desaparece conforme a vontade do roteiro.
No mais, Capitão América: Admirável Mundo Novo não deixa de ser um passo atrás quando comparado ao que a série televisiva apresentou em torno dos dilemas de Sam Wilson, com pouca coisa avançando sobre eles. O quarto capítulo de Capitão América acaba se resumindo a isso: uma obra aprisionada pelo passado da Marvel, que se torna um grande remendo frankensteiniano, recauchutando a fase de ouro do estúdio (no caso, a fórmula dos irmãos Russo), com conflitos mal resolvidos e que geram uma sensação de incompletude.
Resta, mais uma vez, esperar por um milagre e torcer para que a introdução do Quarteto Fantástico faça o UCM ser reiniciado do zero, trazendo novidades aos fãs.














