O que você faria se tivesse a chance de refazer uma ação que se arrepende do passado? Em “Nagi Notes”, o diretor japonês Koji Fukada (Harmonium) nos oferece uma visão de como seria possível estar em paz com o passado focando integralmente no  presente. Afinal, é isso que ele faz ao espelhar a história de Yoriko (Takako Matsui) no  adolescente Keita (Kiyora Fujiwara). Com um olhar delicado, o cineasta nos entrega uma narrativa sobre relacionamentos e se sentir a vontade sobre quem você é e suas  escolhas.  

Acompanhamos Yuri (Shizuka Ishibashi), uma arquiteta que vem a Nagi, uma pequena vila em Okayama, visitar sua amiga e ex-cunhada Yoriko, uma artista plástica. O encontro a faz colocar-se como uma espécie de conciliadora entre Yoriko e seu passado/presente. É curioso que Fukada faz isso a impregnando por brechas da vida da amiga como se  tornar sua modelo viva, acompanhar a evolução de um dos seus alunos, pedir que conte  mais sobre seus sentimentos e assim “Nagi Notes” constrói seu relato em torno desse relacionamento e de todos os outros que ecoam a partir dele e o refletem diretamente. 

Yoriko e Yuri são duas mulheres muito diferentes: uma é mais rígida e certinha  enquanto a outra é desencanada com a vida, não permitindo que sentimentos do  passado a aprisionem e determinem como será sua existência. Ainda assim, elas  conseguem conviver harmoniosamente e ter uma troca de afetos na qual o confronto, a  honestidade e o respeito fazem parte. Em determinando momento, ambas conversam  sobre o fato do término de relacionamento de Yuri e o irmão da artista plástica não tê-las  afetado e Yoriko é taxativa em afirmar que sabia separar as duas coisas e que amava sua  amiga independente do laço familiar não existir mais.  

Gosto dessa construção por mostrar um relacionamento saudável e maduro entre  mulheres. Um tipo de discussão que se tornou pauta na década passada, e, a qual  esteve presente em outras produções apresentadas nessa edição do Festival de Cannes,  como “All of Sudden”, “Natal Amargo” e “Mariage au goût d’orange”. Essa maturidade é  essencial ainda porque vai servir de reflexo para a forma como Keita está descobrindo a  vida, a arte e a própria sexualidade. 

O roteiro cria um paralelo entre as vidas de Keita e de Yoriko, apresentando  possibilidades ao menino que a artista não se permitiu nem no imaginário. Keita pode  não somente aprender o ofício artístico como também ter a afeição paterna  independente do caminho que escolher seguir. Importante ressaltar ainda que Fukada usa esse paralelo também para explorar a aceitação parental da homossexualidade de  seus filhos, uma abordagem singela e meiga que atua ainda como uma quebra do ciclo  de violência sistêmica. 

Nesse cenário, acredito que “Nagi Notes” se preocupa em elaborar as perspectivas que a vida nos traz e como você as utiliza em vários setores da sua jornada. A construção da escultura em forma de busto e as diferentes personas que Yoriko afirma que esta representa é uma metáfora para essas variações. Ao mesmo tempo, em que torna a arte o simbolismo da solidez, justamente aquilo que todos os personagens buscam em seus relacionamentos, por isso Keita se apega ao amigo e é capaz de fazer o que Yoriko não teve coragem quando tinha sua idade, motivo também que a leva a apoiá-lo incondicionalmente, ainda que saiba o quanto sua assistência pode abalar uma  família que já se encontra em pedaços, além de mudar a vida de indivíduos tão jovens.  

Fukada discute arte, relacionamentos e o luto pela morte e pelo fim de uma relação. Ao final do filme, tecnicamente a sensação que fica é de estar diante de uma direção segura e um roteiro que sabe o que quer desenvolver e como falar com seu público. Mas isso não o torna uma produção tocante, envolvente, nem tampouco profunda. É só um dia comum em Nagi.