A expressão “teatro da guerra” costuma ser usada para descrever o espaço ou área onde ocorrem operações militares ou conflitos. Pense bem… Teatro. Evoca a ideia de um roteiro pré-determinado onde um evento obrigatoriamente leva a outro, e a sucessão deles acaba levando a um resultado final, a peça, ou neste caso, a guerra. Evoca também farsa. E quando o teatro é global, as chances dessa peça ter final infeliz são bem grandes.
Casa de Dinamite, o novo filme da diretora Kathryn Bigelow, produzido e lançado na Netflix, é sobre isso: o insano jogo de cartas marcadas que as superpotências precisam jogar umas com as outras no momento de uma crise. E Bigelow e seu roteirista Noah Oppenheim criam uma senhora crise.
Na trama do filme, um míssil nuclear é lançado contra os Estados Unidos. Ninguém sabe de onde ele saiu ou quem o lançou, mas a ogiva vai atingir uma grande cidade americana em cerca de 20 minutos. Enquanto as autoridades tentam adotar medidas para evitar, ou ao menos minimizar a tragédia, o governo americano e o presidente começam a considerar a imediata e inevitável retaliação, que com certeza também terá consequências gravíssimas.
Acompanhamos esse momento de crise pelos pontos de vista de diversos personagens, em diferentes locais: especialistas, militares, políticos. O presidente só aparece de fato com mais de uma hora de filme, embora possamos ouvir sua voz nos variados gabinetes de crise. Em dado momento, o filme nos coloca no meio de uma reencenação da batalha de Gettysburg – é uma sociedade voltada para a guerra, afinal. Para dar vida a esses diferentes núcleos dramáticos, o filme conta com um poderoso elenco: Rebecca Ferguson, Tracy Letts, Idris Elba, Greta Lee, Gabriel Basso, Jared Harris, Kaitlyn Dever e Jason Clarke, e as atuações são uniformemente ótimas, demonstrando o comprometimento desses atores e atrizes com o projeto.
E os primeiros 30, 40 minutos do filme são realmente incríveis, situando-se entre os momentos mais tensos do cinema em 2025. O míssil vai ser interceptado no ar? E se não, qual será o seu alvo? E contra quem os EUA vão retaliar? Bigelow e o diretor de fotografia Barry Ackroyd adotam a abordagem clássica dos tecnothrillers atuais: muita câmera na mão, cortes rápidos – mas não desorientadores – e um trabalho sonoro preciso que nos faz perceber cada entonação nervosa nas falas dos personagens. É um filme de gente olhando para telas, e a direção nos mantém interessados e tensos.
Além disso, é completamente focado nos procedimentos, nas siglas que aparecem para designar cada ambiente, na forma como o governo atuaria numa crise como essa – claro, algumas coisas devem contar com uma dose de liberdade artística, pois alguns dos ritos do governo dos EUA não podem ser revelados.
Porém, Casa de Dinamite não consegue sustentar a tensão do seu início. Devido à própria estrutura do filme, alguns eventos vão acabar se repetindo, e a mudança de pontos de vista por si só não é o suficiente para manter o suspense da narrativa. O filme vai perdendo o gás e murchando até as últimas cenas, justamente o contrário do que deveria acontecer neste tipo de narrativa de suspense.
Além disso, tecnicamente Bigelow não está fazendo nada de novo. Podemos apontar filmes como Voo United 93 (2006), de Paul Greengrass, como precursores da estrutura e do tom de Casa de Dinamite. Ora, podemos até ir mais longe e dizer que Sidney Lumet já contou uma história meio parecida lá em 1963 no clássico Limite de Segurança, e o tom sério e tenso e a narrativa fragmentada já estavam presentes lá.
A força do filme de Kathryn Bigelow, no entanto, e que se percebe em vários momentos, é a percepção do terror que vem do absurdo. “É uma insanidade”, diz em certo momento o general vivido por Tracy Letts, e isso de certa forma resume o filme. O interesse com o qual a diretora e sua equipe retratam os procedimentos e as minúcias de uma emergência como esta acabam sublinhando a falta de sentido deles, frente a um cenário de ataque e retaliação nuclear. Em alguns momentos, especialmente no seu segmento inicial, Casa de Dinamite expõe a proximidade do fim da humanidade, pelas suas próprias mãos, e a loucura do “teatro de guerra”. Insanidade mesmo.













