É quase impossível ao brasileiro médio não ter tido nenhum contato com a obra do cartunista Maurício de Sousa, através de sua maior e mais popular criação: A Turma da Mônica. Dito isso, o público já possui uma memória afetiva que o torna admirador da figura cultural que ele representa. Logo, é inevitável não se sentir preenchido pela singeleza da cinebiografia do artista, que dialoga muito com cada um de nós, que cresceu lendo suas histórias.
Com uma bela fotografia e um cenário que faz uma boa reconstituição de época, somos apresentados ao menino Maurício (Diego Laumar) e sua paixão pelas histórias em quadrinhos. Acompanhamos o primeiro contato daquele garoto com clássicos dos gibis como Flash Gordon e The Spirit. A doce e simples alegria infantil de ter seu dia melhorado apenas por ter visto personagens, historinhas e mundos representados com estilo e paleta de cores diferentes do mundo real é algo com o qual todos podem se identificar, e o longa se sai bem em representar essas sensações.
O caminho para conseguir construir uma carreira artística não veio sem percalços e o filme se sai bem em retratar esse processo, enfatizando a perseverança e simpatia de Maurício. A iniciação no mundo artístico, os primeiros trabalhos, a constituição da família e os conflitos para ter suas próprias histórias publicadas são conduzidas de forma muito prazerosa e leve, assim como são as histórias de Maurício de Sousa. Um destaque nesse sentido é a forma com a qual representam alguns perigos que Maurício chegou a sofrer quando atuou como jornalista investigativo, através do uso de efeitos sonoros típicos de desenho animado, enquanto tiros são disparados por criminosos.
Interpretado por Mauro Sousa, o próprio filho de Maurício, o protagonista é sempre carismático e agradável. É uma pena apenas que ele não encontre muitas nuances para além de seu jeito sempre risonho e gentil, que ressaltam a ideia de estarmos vendo uma versão fílmica de Maurício, digna de uma obra que apenas pretende homenageá-lo. Antes de mais nada, Maurício está ali como um veículo de inspiração e otimismo, que o roteiro faz muito bem.
Natalia Lage como a mãe, Nilda; Emílio Orciollo Neto fazendo o pai Antônio, Elisabeth Savalla no papel da adorável avó e mentora Dita e Thati Lopes como a esposa Marilene estão todos bem ainda que sempre em uma presença modesta diante de Maurício, o que é uma decisão compreensível e acertada para dar foco narrativo ao protagonista. Presenças pontuais de veteranos ilustres da teledramaturgia brasileira, como Felipe Martins (em um retorno surpreendente depois de anos afastado da TV, em uma cena que, apesar de durar pouco, diz muito); Othon Bastos (sempre interessante) e Oberdan Júnior (ninguém menos que o icônico dublador de Tintim na série animada noventista de As Aventuras de Tintim), conseguem imprimir presenças marcantes em tela graças ao empenho admirável dessas lendas.
A criação de algumas das personagens mais emblemáticas das tirinhas e gibis de Maurício são marcadas por causos muito curiosos e interessantes em torno de situações, eventos e até acidentes que os envolvem, dando ao longa um aspecto muito forte de inspiração criativa e injeção de esperança. Infelizmente, menos marcantes são as sequências animadas, que, apesar de serem pertinentes dada a natureza do protagonista retratado, aparecem pouco, aleatoriamente e nada inspiradas. Isso, entretanto, não chega a prejudicar tanto a obra no geral devido à montagem sempre estimulante.
Maurício de Souza – O Filme é uma ode a quem ousa sonhar e acreditar no potencial de seus sonhos, mesmo quando tudo parece ir contra eles. É um retrato lúdico da pureza infanto-juvenil que acompanha um adulto e se revela frutífera como fonte de energia criativa, que toca as mais variadas pessoas.













