Chegamos ao penúltimo episódio desta temporada de “Casa do Dragão” e mais uma vez tivemos um capítulo majoritariamente do time Preto, o que deixou claro suas vulnerabilidades, conflitos pessoais e a forma como os súditos lidam com Rhaenyra. Trazendo divergências de como a história é contada nos livros, este realmente é o capítulo que lida com a semeadura e como essa escolha impacta os nobres diretamente relacionados a dança dos dragões.
A maré baixa dos Verdes
Gostaria, no entanto, de iniciar destacando três momentos e quatro personagens do time Verde: Alicent, Aegon, Larys e Aemond. A primeira parece estar tentando lidar ainda com a aceitação de seu destino como mulher no Universo das Crônicas, é curioso que escolha como caminho da reflexão a natureza. Alicent nunca pode ter suas próprias escolhas, estando constantemente atrelada ao que seria melhor para a sua casa. Semioticamente, a direção de arte nos empurra para seus conflitos internos e a tentativa de entender seu novo papel social por meio da retirada de suas roupas de cor Hightower para o branco e do banho de rio, com todo simbolismo estético que a água carrega em relação a fluidez e libertação.
Quanto aos homens Verdes, a direção de fotografia utiliza planos detalhes para evidenciar as mudanças físicas de Aegon, como a orelha destruída e o corpo queimado, o que nos permite fazer um paralelo tanto com a figura que vimos no início da temporada quanto com Viserys perto de sua morte — o que a série fez questão de nos relembrar nesse capítulo. Aegon não é mais o jovem que riu da palavra magnânimo para defini-lo, está mais próximo de ser um moribundo vulnerável. Como uma figura soberana fragilizada, é interessante que quem permaneceu ao seu lado tenha sido o meistre e o mestre de sussurros que ascendeu ao conselho, diga-se de passagem, por conta das escolhas frágeis do rei. Tom Glynn-Carney mais uma vez comprova o quão bem está enquanto intérprete do primogênito de Alicent.
Larys é um personagem a observar os passos. Ele parece ser temido, mas, ao mesmo tempo, tenta ainda transparecer certo distanciamento em relação aos assuntos da corte e preocupação com Aegon. Mas quais são seus reais planos? Por enquanto, fortalecer a figura regencial que consegue manipular e passar invisível pela que pode fazê-lo virar ração de dragão. Esse, por sua vez, aparece como pano de fundo nesse episódio, fortalecendo que nosso olhar deveria estar sobre Larys e suas confabulações. Contudo, fiquei refletindo se realmente três dragões de médio e pequeno porte poderiam assustar o montador de Vhagar. Essas são cenas para o final de temporada.
Um olhar sobre os Pretos
Já disse isso, mas repetirei. Sinto que falta certa profundidade e complexidade aos personagens da facção que está em Pedra do Dragão. Na verdade, há complexidade. O que falta é saber explorá-la. Por exemplo, Rhaenyra e Mysaria trocaram um beijo no episódio anterior, mas é como se isso não tivesse ocorrido, uma vez que não há implicações na narrativa. Devo lembrá-los que uma das maiores características dos escritos de Martin é justamente as consequências que os personagens enfrentam, sejam eles queridos do público ou não e Casa do Dragão parece simplesmente ignorar isso.
Rhaenyra, por exemplo, confronta Addam por estar com Seasmoke, mas no momento em que ele se ajoelha para ela e diz que irá servi-la, a filha de Viserys simplesmente aceita. Cadê aquela Rhaenyra questionadora e pirracenta da adolescência? Será que amadureceu tanto a ponto de não ter um pingo de ímpeto que possa impor temor aos que a cercam? Isso vale para Addam, já que ela assume que o aceitou por não ter outra saída, mas aplica-se também a maneira como os treinadores de dragões falam com ela, como se fossem os domadores e não ela. O resultado é que a rainha dos Pretos afunda-se em inseguranças e em alimentar as garras dos poucos membros de sua corte.
Nesse sentido, a semeadura é um momento-chave para mostrar um pouco dos conflitos que permeiam os nobres que a acompanham. Corlys, por exemplo, não sabe muito bem como lidar com Addam, seu filho bastardo, que agora é um montador de dragões e tem, de certa forma, um adicional diante do ex-patrão. Jace, no entanto, é quem protagoniza a cena mais forte em relação aos novos domadores. Afinal, o rapaz realmente conhece sua origem bastarda ainda que tente sufocá-la e toma a decisão de, mais uma vez, confrontar a mãe que parece alheia, como sempre, as consequências de suas ações. Gosto de ver como Harry Collett transpõe o incômodo do personagem nesta sequência, seus lábios e olhos tremem e ele pouco lembra o jovem que acompanha a mãe e parece ansioso por somar neste conflito que também lhe envolve. Rhaenyra, por outro lado, está mais voltada a si mesma e o que acredita que possa fazer por sua própria reivindicação, enquanto herdeira da profecia, não da coroa. Nesse sentido, ela reflete Viserys e o quanto este não pensou no que aconteceria quando nomeou uma mulher ao trono tendo filhos homens com pretensões mais fortes.
Partindo desse ponto, quero deixar claro que não considero Jace um bastardo, pelo mesmo motivo que Ramsay Bolton deixou de ser: o reconhecimento da coroa. Para o rei, ele era um Targaryen Velaryon fruto do casamento da princesa herdeira, logo assumo essa orientação. É curioso, entretanto, que a própria Rhaenyra se escandalize com a colocação do filho, que parece ter compreendido desde cedo sua origem, e com a sugestão da semeadura.
Esse mesmo posicionamento pouco estratégico culmina na cena em que escolhe o dragão mais furioso e coloca toda a plebe em direção a ele, para serem fulminados. A série já vem trabalhando a algumas semanas com os dois personagens que domam Vermithor e Asaprata. Quero chamar a atenção não para eles, mas a sua origem. Primeiro, conhecemos Ulf, que diz ser filho de Baelon, pai de Viserys e Daemon. E, neste episódio, tivemos a confirmação que Hugh é filho de Saera, a filha “promíscua” de Alysane e Jaeherys. Curiosidade de fã dos livros: a mesma foi rejeitada por Baelon depois da morte de Alyssa, mãe dos meninos. É interessante que a série coloque os filhos desses dois irmãos como aqueles que participarão da semeadura. Compartilho com vocês o meu desejo de um dia ver uma produção que foque nesse período da regência de Westeros.
Por fim, Daemon meio que enfrentou um julgamento promovido pelo pequeno Lord Tully, o qual, em contrapartida a Rhaenyra, mostrou como um suserano jovem precisa e pode se impor. O irmão de Viserys sempre quis a coroa, mas essa realmente parece estar cada vez mais distante dele, junto ao respeito que poderia ter das casas de Correrrio. Admito que está na hora dele voltar para Pedra do Dragão, seu plot em Harrenhal já deu o que tinha de dar.
Até agora o saldo dessa temporada de Casa do Dragão é mediana. Há material a ser trabalhado, mas a direção cada vez mais se distancia das propostas dos livros e contos. Vejamos se ao menos o último episódio consegue incendiar a mornidão instaurada.














