Em vários momentos do último episódio da segunda temporada de “Casa do Dragão” me senti em um filler. Como final de temporada, tivemos a tentativa de fechar todas as subtramas abertas ao mesmo tempo em que novos plots foram introduzidos já pensando no desenvolvimento mais a frente. As situações apresentadas, contudo, dizem muito sobre o que foi essa fase da Dança dos Dragões e o quão morna foi a atual temporada.
É curioso traçar um paralelo entre o primeiro episódio e este a fim de perceber a dinâmica que cerca cada lado do conflito Targaryen e como eles terminam a fase pré-batalhas. Por um lado, os Verdes, que receberam maior profundidade e tridimensionalidade do roteiro ao longo dos capítulos, se veem num turbilhão digno de divã. Enquanto Rhaenyra entra para o campo de batalha maior do que nunca, bem diferente da mãe enlutada e rainha podada que tínhamos até a morte de Rhaenys. Entre surpresas e preparos, o que houve com cada facção nesse episódio?
Time Verde
Começamos o episódio do outro lado do mar Estreito. Tyland, o mestre das moedas humilhado no episódio “Um filho por um filho”, vive uma aventura para tentar fechar um acordo com a Triarquia. O Lannister polido e educado vai literalmente a lama para conseguir o apoio que a Coroa Verde precisa e nos possibilita conhecermos visualmente um pouco mais dos piratas de Essos e os costumes que os ronda, algo que “Game of Thrones” não foi capaz de fazer. A sequência é interessante e tem seu propósito quando conectado ao final, contudo soa como um filler dentro do episódio.
Enquanto isso, na capital, Aemond entra em desespero depois de ver os novos montadores de dragões e faz o que costuma fazer quando está chateado ou se sente mitigado: parte para o ataque. A vítima dessa vez são os moradores de uma cidade importante para a proteção de Porto Real. Sem medir as consequências, como fez com Luke e Aegon, ataca aqueles a quem deveria proteger. Nesse sentido, a cena dele com a mãe e a irmã prova cada um desses pontos, uma vez que Alicent o acusa de destruir aqueles para quem a coroa existe e podemos ver o assombro, pânico, medo e angústia que estão em ebulição dentro de si.
Sua troca com a irmã é muito significativa no presente contexto. Na temporada anterior, Aemond sempre foi muito respeitoso e protetor com a irmã-rainha, mas agora que ela se encontra como um instrumento para sua sede por batalha, a trata pior do que Aegon. O que ele não contava era que ela se defenderia e suas palavras, no momento de derrocada do regente, poderiam ser cruéis e, para os leitores de Fogo e Sangue, uma premonição de seu final. Espero que, pelo menos, possamos ver Helaena montada em Dreamfyre, mesmo que não vá a batalhas.
A personagem, que teve ótimos momentos nos dois primeiros capítulos dessa temporada, aparece como um recurso narrativo aqui para polir os nêmesis Aemond e Daemon. Honestamente, ainda estou refletindo sobre seu papel, embora eu goste da chamada de atenção no irmão, me incomoda como a personagem foi reduzida a um segundo plano, exatamente como as futuras rainhas Targaryen também seriam. Não era isso que Alysane e Rhaena desejavam para suas descendentes.
Para fechar o arco Verde, Larys e Aegon se apoiam um ao outro como uma boia de salvação. Larys sempre em busca de poder, enquanto Aegon de aceitação. Não vou negar que achei cômico ele querer ser chamado de Deleite do Reino, apelido que pertence a sua irmã, líder dos Negros. No entanto, finalmente sabemos os estragos que a Batalha no Pouso de Gralhas trouxe para si: a emasculação e a morte de Sunfyre. Não acredito muito em nenhuma das duas consequências, mas aguardemos as cenas dos capítulos finais da “Casa do Dragão”.
Ao olhar em retrospecto, time Verde termina alguns degraus abaixo na corrida pelo Trono de Ferro. Helaena parece ser o único membro da facção ainda em Porto Real, logo eles que iniciaram com a capital, o trono, dragões mais adultos e o apoio do povo foram perdendo as vantagens devido as próprias escolhas equivocadas.
Time Preto
Rhaenyra parece finalmente assumir o comando da sua facção com segurança. A filha de Viserys encerra essa temporada não com a melhor campanha, mas o melhor resultado, com certeza. Depois da semeadura, há ao seu lado 03 montadores de dragão a mais que seus opositores e com dragões experientes. No entanto, falta a eles a compostura que os treinadores e seu filho tentaram alertá-la. Ulf, por exemplo, reitera aquele velho ditado de “quem nunca comeu melado, quando come se lambuza todo”, não demonstra respeito pela rainha, por Jace e nenhuma outra figura da nobreza.
Por falar em Jace, ele parece compartilhar os mesmos sentimentos do tio caolho, além de não conseguir sair da coitadolândia, nem mesmo com Baela ali tentando levantar seu moral. Outro que não aceita muito a situação em que se encontra é Alyn. Não gosta do posto dado por Corlys e o confronta, deixando bem claro os incômodos da procura tardia do Senhor de Derivamarca e os infortúnios de ser uma criança pobre e bastarda. É uma cena interessante para que conheçamos mais o personagem e suas motivações.
Depois de tantas divagações, o arco de Daemon em Harrenhal encerrou com mais acertos do que erros. Para mim, o personagem viveu seu próprio momento de narrador em Clube da Luta, então não tem como sabermos se o que via eram sonhos ou desassociações enquanto estava acordado. Em todo caso, seu momento ao pé da árvore coração nos mostra que Allys é uma vidente verde tal qual Bran Stark e que possibilitou que Daemon tivesse vislumbres do futuro de sua casa e de Westeros.
Sinto que esse arco foi importante para que a magia, reduzida no universo de Game of Thrones, pudesse ter seu espaço em House of the Dragon, uma vez que o próprio George Martin já admitiu o quanto esse é um item muito significativo dentro da sua literatura. No entanto, discordo da escolha do roteiro por dois motivos simples: o primeiro é que a profecia é o elemento pior desenvolvido na “Casa do Dragão”, não justifica o que houve em GOT e nem melhora seu final tenebroso e, em segundo, para que trazer Daenerys de volta? A única justificativa que vejo é fan service, mas de que adianta se ao final ela vai continuar sendo assassinada pelo outro único Targaryen vivo e é Arya quem vai salvar a Longa Noite?
Há aqueles que acreditam que o motivo é a volta dos dragões, mas, honestamente, não são esses “animais mágicos” que poderiam acabar com o grande mal, como vimos. House of the Dragon precisa seguir seu caminho e parar de tentar criar um elo com GOT, porque não vai mudar o seu final e ainda vai enfraquecer o potencial narrativo da série atual.
O grande encontro
Já que estamos falando de pontos negativos, Condall e companhia seguem insistindo na inimizade de Rhaenyra e Alicent, de tentar colocar as duas no mesmo nível quando não estão. O encontro entre elas é uma resposta àquele momento no septo, ambos fora do tom das personagens e do que “Casa do Dragão” propõe. Rhaenyra é rainha, chefe de estado, enquanto Alicent é apenas a mãe do Rei e seus regentes; como politicamente as duas estariam na mesma disposição?
A conversa entre ambas é a ligação entre o episódio um e esse. É a vez da rainha-mãe pedir clemência, de dizer que aceita a proposta de Rhaenyra feita no septo, mas esta segue sem ter noção de sua própria realidade. Alicent quer as coisas boas, mas não as consequências. Chateia-se quando Rhaenyra debocha de sua virtude, quer que a ex-amiga abandone tudo e vá viver no campo junto de si, não concorda quando a rainha diz que vai matar os pretendentes ao trono. Mas afinal, o que ela esperava? A Rhaenyra do episódio piloto? As vezes me questiono se os roteiristas desta série realmente refletem na construção dos personagens.
Alicent quer resolver a guerra que ela mesmo criou, em busca de uma liberdade que só existe em sua mente e só serve aos seus próprios interesses. Alicent falhou como mãe, Rhaenyra segue numa espiral de vantagens, fechando a temporada em seu melhor momento. Chega, porém, de espelhamentos e tentativa de por personagens dispares no mesmo patamar.
Necessário dizer, no entanto, que “Casa do Dragão” não se encontra em seu melhor momento. A temporada foi morna, com poucos momentos de impacto e episódios que andavam em círculos, além do final parecer um capítulo de encerramento de novela no qual todos os personagens precisam ter tempo de tela para terem suas histórias concluídas. Não precisávamos de Rhaena, Cole e Tyland nesse momento, por exemplo.
Há conteúdo das histórias principais a ser desenvolvido, resta saber as escolhas que os roteiristas e produtores tomarão, afinal as tropas estão marchando, a guerra já está em curso.














