Ele foi de ator de comédias pastelão a um diretor que consegue, em seus filmes de ficção, captar a essência da vida de artistas. Bradley Cooper retorna a cadeira de diretor e roteirista com a mistura entre comédia e drama de Isso Ainda Está de Pé?.
O filme acompanha o casal Alex e Tess, interpretados por Will Arnett e Laura Dern, que veem seu casamento se desfazer silenciosamente. Alex busca um novo propósito no stand-up comedy novaiorquino, enquanto Tess confronta os sacrifícios feitos em nome da família. Esse momento dá ao casal novas perspectivas sobre paternidade, coparentalidade e as possibilidades românticas que nascem a partir do momento em que você cresce como indivíduo.
O Cine Set participou de uma coletiva de imprensa com Bradley Cooper, no qual o diretor falou sobre sua relação com o stand-up, a construção dos personagens e seu ponto na carreira enquanto diretor roteirista.
Pergunta – Quanto você é fã de stand-up comedy? Isso é algo pessoal para você? Como ator, quais são os sentimentos envolvidos durante a produção? E especialmente como ator dirigindo atores, como foi diferente?
Bradley Cooper – Sempre fui um grande fã de stand-up comedy desde criança. Cresci numa época em que Rodney Dangerfield tinha um especial todo Ano Novo, com todos aqueles comediantes incríveis e lendários. Assistia com meu pai.
E o Richard Pryor, quando eu era criança, estava fazendo muitos filmes como ator. Richard Pryor era, tipo, meu ator favorito. E só na adolescência é que eu o descobri como comediante de stand-up, na verdade. Ele virou uma força enorme pra mim. Então, o stand-up sempre foi um interesse muito grande na minha vida.
Quando me mudei para Nova York, no final dos anos 1990, pra fazer pós-graduação, mergulhei em todos esses circuitos incríveis daqui. Foi quando fui pela primeira vez ao The Cellar, que é onde grande parte do filme se baseia.
Então sempre foi uma parte enorme da minha vida recreativa. E em termos de como isso se encaixa nesse filme, é simplesmente um processo maravilhoso de poder se expressar, ser completamente vulnerável e aberto com uma sala cheia de estranhos, o que pode ser aterrorizante, mas de alguma forma evoca uma verdade. EParecia o contraponto perfeito para esse personagem. E também o Will Arnett foi uma grande razão pela qual eu quis fazer isso: ele sempre é o cara mais engraçado da sala, desde que o conheci há 28 anos, logo, a ideia dele fazendo isso era muito empolgante.
CINE SET – Temos duas pessoas em um processo de cura emocional. Gostaria que você comentasse sobre as escolhas para esse processo de separação, encontrar a si mesmo, expressar-se.
Bradley Cooper – Obrigado por reconhecer isso. São duas pessoas em lugares diferentes individualmente, mas no mesmo lugar na relação delas, essa coisa não está mais ligada para usar o título do filme (Is This Thing On?). No entanto, eles estão em lugares bem diferentes.
Gostamos muito da ideia de explorar um parceiro que já conquistou tanto individualmente como atleta olímpica, e ela está meio que descendo a montanha. E outra pessoa que nunca nem enfrentou a tentativa individual de ter sucesso em algo fora do que parece ser o casamento e a família. Realmente era sobre explorar como nós, como indivíduos, passamos por um processo de desenvolvimento, e para o personagem do Alex, é o stand-up comedy que o permite crescer individualmente.
Se houver um processo que exija de nós sermos reais e nos expormos e sermos verdadeiros, isso permeia nas nossas relações íntimas e é só fazendo isso que ele consegue chegar a um terreno comum com a parceira dele, que estava esperando por esse tipo de comunicação que a gente só consegue na cena do sótão no final do filme.
Pergunta – Você dirigiu três filmes e todos eles giram em torno de artistas. Isso é algo consciente de alguma forma? O que você acha tão fascinante nisso? Ou é mais uma questão de identificação pessoal?
Bradley Cooper – Talvez eu precise me autoanalisar mais, porque nunca tinha pensado nisso até as pessoas começarem a mencionar. Mas é uma declaração bem evidente, verdadeira e precisa. Pensei sobre isso desde então, e acho que deve ter algo a ver… é interessante.
É como o lugar em que eu estou na minha própria vida, em oposição ao momento em que você cria algo. É interessante fazer esse filme agora; ele é esperançoso e trata mais do processo de performar do que de qualquer outra coisa. Já os outros dois filmes quase tratavam de um artista: Nasce Uma Estrela tinha todo esse trabalho, mas nunca conseguia mostrá-lo e ser recebido por um público, enquanto Maestro, era todo sobre um artista que sentia que, em algum grau, o escopo da sua criatividade não podia ser contido no mundo em que vivia. Já Isso Ainda Está de Pé? é simplesmente sobre a genuína produtividade do processo de criar arte, sobre o que isso faz para nutrir a alma humana.
Talvez haja essa evolução da minha própria relação com a arte. Não sei. Mas eu não pensei muito sobre isso, além do que acabei de te dizer. Mas é interessante, com certeza. Talvez eu devesse tentar me afastar disso.
Pergunta – Achei esse filme muito relevante socialmente, aborda tópicos atuais, um dos quais é a esposa simplesmente atacando ele com todas as coisas com que ela está insatisfeita, e ele simplesmente se retraindo cada vez mais. E isso me fez perceber, lá pro final, quando ele admite que não gosta de falar sobre isso, que não consegue acessar as coisas que quer comunicar pra ela — que ele a ama, que quer estar na relação. Isso levanta as diferenças de gênero na forma como os gêneros se comunicam. Como diretor homem, fiquei bem empolgado de ver você se aprofundando nisso. Você acha que isso é uma verdade? E pode elaborar sobre isso?
Bradley Cooper – Curioso como algumas pessoas enxergam a relação dela com ele como algo agressivo. Quando mostrei o filme para amigos, muitos comentaram: “Nossa, ela pega pesado com ele”. Eu nunca vi dessa forma. Não sei exatamente o que isso diz sobre mim [risos], mas, para mim, ela está apenas constatando o óbvio. Eu ficava pensando: “Sério que isso está sendo lido como um ataque?”.
Eu amo a Tess. Adorei escrevê-la para a Laura [Dern]. Desde o início do filme, vejo a Tess como alguém que já está em um lugar de comunicação muito mais honesto consigo mesma e com o outro. Ele, por outro lado, simplesmente não está. Quando ela vê aquela foto, eu entendo completamente de onde vem a reação dela. É estranho, quase perturbador, você colocar no seu apartamento uma foto das costas do corpo da sua esposa, tirada 28 anos antes, para os seus filhos verem. Não dá nem para ver o rosto dela direito. E isso fica ainda mais evidente na cena em que o Balls pergunta o que é aquela imagem. “É a Tess”, ele responde. “Mas eu nem consigo ver o rosto dela”, e a resposta vem quase como um desvio: “Foi tirada assim”. “Então vira ela de frente”. Ali está tudo dito.
Nunca pensei essa situação como uma discussão sobre gênero. Para mim, trata-se muito mais de um conflito de personagem. É a história de alguém que já conquistou tudo o que poderia conquistar — escalou o Everest, chegou ao topo — e agora precisa lidar com a pergunta mais difícil: o que vem depois? O que é a minha vida depois que eu já cheguei lá? A Tess tem uma coragem enorme de admitir coisas profundamente humanas, como dizer que, às vezes, nem os filhos ou aquela família parecem suficientes. Reconhecer isso exige uma honestidade brutal.
No fundo, o que eu estava tentando explorar com o filme é a dificuldade de comunicação entre as pessoas quando elas não têm espaço para seus próprios processos de expressão. Acredito que, para duas pessoas conseguirem se comunicar de verdade, cada uma precisa ter uma vida interior em movimento, algum empreendimento pessoal que permita elaborar sentimentos, desejos e frustrações. Se isso não acontece, tudo começa a se acumular. Você entope por dentro. E é exatamente nesse lugar que ele está no começo do filme.
Pergunta – Bradley, você capturou magistralmente o equilíbrio entre os momentos dramáticos chave e a linha narrativa com um humor cru, sem que isso seja uma comédia. Pode falar sobre esse processo como roteirista e como diretor?
Bradley Cooper – Pensar em filmes, seja comédia ou drama, é sempre algo muito complicado para mim. Neste caso, eu sabia que queria me inclinar para a leveza da vida, isso com certeza. Essa intenção aparece tanto no tom geral quanto na criação de certos personagens, como a mãe do Alex ou o melhor amigo dele, o Balls — figuras que atravessam a vida de um jeito naturalmente engraçado, quase despretensioso.
Há também o fato de o personagem estar inserido em uma cultura de comediantes de stand-up, o que não significa, necessariamente, que o filme precise ser uma comédia. Para mim, isso sempre foi mais um reflexo da própria experiência de viver. Quando penso nos momentos mais dramáticos da minha vida, percebo que muitos deles também foram atravessados por situações cômicas. As duas coisas quase nunca estão separadas.
O que eu busquei, então, foi esse equilíbrio entre o drama e o humor, e isso foi uma preocupação consciente durante o processo de escrita — na verdade, não só na escrita, mas em todas as etapas do filme. A ideia era sempre subverter qualquer expectativa rígida de gênero, quebrar a sensação de que o espectador está apenas “assistindo a um filme”, e aproximá-lo da realidade da vida, que é contraditória, imperfeita e, muitas vezes, engraçada mesmo nos momentos mais difíceis.














