Há uma frase de Drummond que nos diz: “o casamento indissolúvel é dissolvido pelo divórcio, pela morte e pelo tédio”. “Conselhos de um serial killer aposentado” parece ter interesse especial na segunda alternativa.
Keane (John Magaro) é um escritor pretensioso e particularmente sem talento. Seu mais novo projeto consiste em uma história de amor entre o último Neandertal e uma mulher Homo sapiens. Suzie (Britt Lower), esposa de Keane, só falta disparar raios de gelo contra o sujeito, tamanha a frieza com que o encara.
Tudo bastante amargo e não exatamente interessante. A trilha esquisitinha, cheia de flautas dissonantes e efeitos percussivos, dá a impressão de que o diretor turco Tolga Karaçelik quer instigar um senso de humor sombrio no espectador, sem que nada seja particularmente engraçado. Mas é justamente engraçado que “Conselhos de um serial killer aposentado” se torna a partir do momento em que o assassino do título entra em cena.
Por uma série de motivos disparatados, o sujeito, interpretado pelo gelado Steve Buscemi, acaba se passando por terapeuta conjugal de Keane e Suzie. Secretamente, ele e o escritor trabalham em seu próximo livro, onde seus métodos letais serão finalmente desvelados ao público.
É uma premissa deliciosamente farsesca que se presta a complicações ainda maiores quando o assassino passa a comandar as sessões do casal a partir de sua filosofia de morte. Suzie, para desespero de Keane, compra a ideia.
O mote parece ser o casamento como um treco de morrer — nada de novo no front, portanto. O que separa este filme de outras comédias conjugais é a guinada farsesca via tema criminal, algo que parece reminiscente de um daqueles contos noir dos Coen de outrora. O elenco também ajuda, especialmente Lower, cujo jeito dominador pavimenta o caminho para uma grande recompensa ao fim da projeção. “Conselhos de um serial killer aposentado” não reinventa a roda, mas não precisa.











