Um dos prédios mais populares de São Paulo é o Copan. Projetado por Oscar Niemeyer em formato de curva, o edifício possui 32 andares, com 1.160 apartamentos e mais de 5.000 habitantes, entre moradores e prestadores de serviço. “Copan”, documentário de Carine Wallauer, adentra nesse ambiente para tentar retratar o Brasil. O grande problema é que o documentário enfrenta dificuldades na construção desse retrato.
Isso acontece porque a mensagem que Wallauer quer passar não fica evidente. No primeiro momento, nós somos apresentados a diferentes personagens que fazem parte daquele espaço. Entramos em seus apartamentos, mas não os conhecemos, não sabemos seus nomes e nem tampouco o que realmente fazem para além da cena que é enquadrada diante dos nossos olhos. Isso não interessa a documentarista, uma vez que não retorna a essas figuras.
Conforme a trama avança, outros dois itens também se juntam a essa dificuldade de passear pelo Copan: o som e as imagens. Sempre estridente e um tanto estourado, o áudio é incômodo durante toda a projeção; como se algo estivesse prestes a explodir ou nos deixar surdos em algum momento. Acredito que esta escolha vise trazer um tom desconfortável, mas ao mesmo tempo isso também nos distancia da projeção e do próprio retrato que se quer criar sobre o país.
Nessa mesma esteira, as imagens também criam certo grau de distanciamento. Sua câmera nos apresenta um espaço sem vida, que lembra bastante as “Backrooms: um não-lugar“, invés de criar uma relação com essa edificação icônica, nós navegamos por corredores amarelados, anêmicos e que parecem sugar a existência e caracterização de qualquer um que passe por eles, como se fosse realmente um cenário de filme de terror. Faltam pessoas, vozes, histórias, conflitos e densidade — não apenas nos corredores do edifício, mas em todo o filme.
Admito que devido a popularidade do Copan, acreditei em certo momento que Wallauer, que morou no prédio por sete anos, quisesse trazer uma personalidade a sua estrutura como Moreira Salles faz ao explorar sua casa em “Santiago” e, claro, Eduardo Coutinho em “Edifício Master”. Quando me deparei com a moça que produz conteúdo adulto, o músico, os trabalhadores que falam mal da administração; pensei, honestamente, estar diante de uma percepção paulista do que Coutinho e sua equipe desenvolveram do prédio em Copacabana, mas não poderia estar mais enganada.
“Copan” se concentra em exibir as estruturas que formam o prédio projetado por Niemeyer. Isso explica a escolha da trilha sonora, mas também a falta de vida presente nos seus corredores. Invés de mostrar os moradores, prefere apresentar os trabalhadores — sem mostrar, contudo, suas histórias, características, apenas evidenciado a venda da sua força de trabalho — para indicar como um prédio tão diverso se mantém em pé e como referência por seis décadas.
É nessa busca por discutir a estrutura do Copan, contudo, que Wallauer oferece sua cartada principal para assinalar que o prédio é um microcosmo do Brasil por meio da eleição para síndico. Gravado em meados de 2022, a diretora traça um paralelo entre a escolha do administrador do prédio e do presidente da nação, trazendo contrapontos e argumentos que facilmente poderiam estar na boca de um bolsonarista ou um lulista como um “nunca mais ele sai do poder” ou “teremos que nos mudar, caso ele continue no poder”. A presença de apenas 90 pessoas para decidir a organização que afetará cinco mil moradores também sugere muitas discussões sobre quem realmente decide as coisas no país. A inserção do hino nacional com apenas a execução do violino é só a cereja do bolo da temática que Carine Wallauer quer suscitar.
O grande problema é a falta de preparo narrativo para esse debate. Não há construção para a transição das questões espaciais para a política. Falta elo, conexão e envolvimento com os personagens que vão surgindo diante da tela afirmando seu posicionamento político. Soa como se estivéssemos ouvindo conversas paralelas, como ouvidos curiosos, não como se pertencêssemos a observação daquele grupo ou como se a mensagem tivesse sido preparada para nós. Além disso, quando a discussão escalona, só ouvimos as vozes por trás de portas fechadas, indicando a falta de coragem, mais uma vez, que o filme carrega.
A pergunta que me faço diante de tudo isso é sobre o que “Copan” realmente quer falar. Política? Estrutura? Arquitetura? Não sei dizer, uma vez que ele tenta pincelar cada um desses itens, mas acaba mergulhando em um mar de incertezas habitado pela falta de coragem, de ousadia, de dar voz e contar histórias desse edifício tão plural e multifacetado no imaginário paulista. Fiquei com a sensação de estar vendo apenas um quarto vazio.














