A história do momento nas manchetes da indústria diz respeito à juventude: os dois principais lançamentos de terror da temporada, “Obsessão” e “Backrooms — Um Não-Lugar“, são frutos da Geração Z.
O primeiro foi dirigido por Curry Barker, de 26 anos. Jovem, sim, mas não o bastante para configurar um disparate. Já o caso de “Backrooms” é mais espetacular — e é aqui que os queixos caem e os narizes se torcem: seu diretor, Kane Parsons, está capitaneando esta produção distribuída pela A24 com meros 20 anos de idade. Coma poeira, Orson Welles.
Naturalmente, dado o histórico hollywoodiano de garotos-prodígios — não só Welles como também Bogdanovich, De Palma e, mais recentemente, Coogler — a pergunta de um milhão de dólares (ou dez milhões, orçamento estimado de “Backrooms”) é uma só: o moleque presta ou não?
Acólitos da Sétima Arte talvez criem caso ao descobrirem se tratar de mais um youtuber tentando a sorte em Hollywood: Parsons dirigiu uma websérie baseada na lenda urbana digital dos tais “backrooms”, um espaço liminar saído diretamente do limbo corporativo. Ele tinha 16 anos.
Com as visualizações, chegaram as propostas dos estúdios. E a pergunta permanece: é gênio ou é hype? Aqui, como em tudo na vida, é preciso calma. Não, não se trata do salvador do cinema nem do futuro dos filmes, como algumas vozes mais entusiasmadas vêm alardeando. O que Parsons demonstra ser, sobretudo, é um criador cuidadoso de imagens e espaços, que, no entanto, se mostra destrambelhado na hora de dar peso ao drama.
Parte da frustração que se tem ao assistir o filme é indissociável de sua origem: uma lenda urbana, construída como é de pedacinho em pedacinho, tem sua razão de ser na incompletude. Tente chegar mais perto e o mistério desaparece. O desafio, portanto, é manter toda a ambiguidade da creepypasta original, ao mesmo tempo em que se cria uma narrativa envolvente capaz de sustentar um longa.
Tarefa difícil até para os mais experientes cineastas. Mas, em se tratando dos prazeres superficiais de um filme — e que não se confunda superficialidade com inaptidão —, Parsons se sai muito bem. “Backrooms” é mais bonito de se ver do que 99% da produção contemporânea do gênero (um filme com cor! Finalmente!). Fora dos corredores subterrâneos intermináveis, temos céus tão azuis que se tornam irreais; dentro, o brilho opressor das lâmpadas fluorescentes paira sobre o carpete bege, criando uma clausura angustiante.
Aliás, os tais backrooms são uma maravilha da direção de arte: um amontoado de mobílias em espaços sem sentido, estendendo-se em ângulos inusitados e pontos-de-fuga esquisitos. Tudo é registrado por lentes grandes angulares que distorcem o campo de visão, criando um efeito desconcertante bastante eficaz. A primeira metade do filme se sustenta muito bem enquanto se permite apenas explorar esses corredores, recheados de aparições cada vez mais surreais.
Nesses momentos, Parsons usa um estilo found footage que remete não aos exemplares consagrados do cinema, e sim aos seus derivados digitais: mais especificamente, a jogos de terror em primeira pessoa como “Outlast” e “Slender: The Eight Pages” (este último, oriundo dos mesmos fóruns digitais que “Backrooms”). Apropriado, em se tratando de uma obra que irá tratar diretamente de duplos e cópias mal acabadas.
Nada muito longe, aliás, de algo como, “Nós”, de Jordan Peele. É que Parsons não foi contratado pela originalidade da sua visão, e sim pela sua competência em remeter a uma porção de outras coisas reconhecíveis pelo espectador.
Entende-se, então, que é até estratégico que ele não tenha nenhuma perspectiva particularmente interessante animando seu projeto. Sua trama nada mais é que um pretexto para que ele demonstre sua competência de artífice, como se elaborasse um portfólio milionário em vídeo. Isso, per se, não é um problema. O problema é que falta ao rapaz a fibra para ter convicção em sua total falta de convicções.
Surge assim a necessidade de preencher as lacunas com os velhos dramas batidos e cacoetes temáticos que já conhecemos de outros carnavais. Pensem em títulos como “Hereditário“, “O Babadook” e “Midsommar“, em que não basta o horror das imagens e dos sons: para existir, ele deve ser justificado pelo trauma ou luto dos personagens. Como se uma imagem aterrorizante não falasse por si só.
E é um clichê particularmente desastroso quando aplicado a um filme que precisa, pelo seu caráter de lenda urbana, das pontas soltas, da superficialidade. Desesperado para encontrar um norte para suas imagens, Parsons e seu roteirista, Will Soodik, apelam para essa muleta. Podem apostar que tanto Clark (Chiwetel Ejiofor, sua testa enrugada com mais vincos do que nunca) como Mary (Renate Reinsve, que se sai bem ante a ingrata tarefa de reagir a ameaças fora-de-quadro) têm seus traumas para lidar.
Ele, um arquiteto fracassado que se tornou alcoólatra e foi largado pela mulher. Ela, uma terapeuta cuja fachada fria esconde uma infância presa à mãe esquizofrênica. Mesmo não sendo surpreendente, não deixa de ser decepcionante quando, lá pelas tantas, surgem as rimas visuais ligando a clausura dos corredores subterrâneos aos pesadelos de infância de Mary. Logo depois, é a vez dos diálogos óbvios e da psicologia de botequim, e o filme parece deixar de ligar para o mais importante: meter medo.
É uma pena, porque isso é algo que as primeiras incursões pelos corredores infernais fazem muito bem — coincidência ou não, são as sequência mais próximas do que é a websérie de Parsons. Resta torcer para que a idade traga ao rapaz a serenidade para abraçar sua própria superficialidade. Isso sim seria sinal de maturidade.
















