É seguro dizer que Corrida dos Bichos é um dos lançamentos de maior destaque do cinema nacional em 2026: orçamento estimado em R$ 25 milhões, destaque em um dos maiores serviços de streaming – Amazon Prime Video -, e conta com um grande elenco e a codireção de Fernando Meirelles, do Cidade de Deus (2002). Pena que a impressão que o longa deixa ao seu final é de se tratar de um “filme de algoritmo”, feito para ser adição de catálogo de streaming. É como se alguém tivesse pedido a uma IA para criar uma mistura do clássico brasileiro com Jogos Vorazes (2012), pitadas da série Round 6 e do longa de ação francês B13 – 13º. Distrito (2004), aquele que popularizou o parkour. Eis então este novo filme.
A produção se passa em um futuro distópico, no qual o Rio de Janeiro (e presume-se o Brasil), foi atingido por uma catástrofe – o longa deixa em aberto o que houve, mas fica a impressão de que as mudanças climáticas foram responsáveis por transformar a Baía de Guanabara em um deserto e a volta da Mata Atlântica. O entretenimento da população é a chamada Corrida dos Bichos, uma transformação do antigo jogo do bicho no qual os competidores – leia-se, pessoas pobres – usam máscaras de animais e se arriscam numa corrida violenta cheia de obstáculos pela cidade, enquanto todo mundo aposta, especialmente os ricos.
O herói relutante do filme, Mano (vivido por Matheus Abreu), se vê forçado a entrar na corrida para salvar a irmã, Dalva (Thainá Duarte). Ele assume a máscara do Gato e embarca na prova recebendo orientações da sua apostadora, Nadine (Ísis Valverde).
A tônica do filme é a ação e o movimento: desde a cena inicial que apresenta a corrida, compreendemos as regras desse mundo já no meio da correria. E tome planos com drones, montagem picotada e a ironia de um dos primeiros participantes da corrida ser o “Galo”, que corre pela favela, como na abertura de Cidade de Deus.
O problema é que Corrida dos Bichos se move rápido, mas não desacelera para explicar melhor as regras daquele universo. A exploração não fica muito clara: o que afinal ganham os apostadores? O que sustenta o jogo? Cadê o governo? Vemos uma resistência contra o sistema e o jogo, mas isso é apenas jogado no roteiro, sem ter muita relevância na trajetória do protagonista. Até a alegoria da história é enfraquecida: percebe-se que Meirelles e seus co-diretores Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento querem fazer uma comparação com a nossa atual cultura das bets, mas é tão superficial dentro da narrativa que nem se pode dizer que se trata de uma crítica às apostas.
Quanto ao elenco, Rodrigo Santoro é o destaque como o produtor da corrida, com o ator se divertindo ao viver um sujeitinho nojento. Algumas das participações e não dizem muito a que vieram e acabam sendo distrações, como a da Grazi Massafera. E a narradora da corrida, vivida pela cantora Anitta, representa um dos aspectos mais irritantes das produções de streaming atuais. Ela aparece frequentemente para explicar para nós aquilo que já acabamos de ver – um dos exemplos mais claros da tendência infeliz dos streamings de ficar repetindo informações da história para as pessoas que assistem filmes e séries enquanto checam seus celulares.
Tudo isso contribui para a sensação de filme de algoritmo e de produto meio sem alma. O que resta ao longa é apostar na ação, com sequências inegavelmente dinâmicas, muitas cenas de parkour e façanhas de dublês. Momentos que mostram o Rio de Janeiro degradado também impressionam, com efeitos de computação gráfica efetivos e bem colocados.
Corrida dos Bichos é uma produção empolgante em alguns momentos e frustrante em outros. Se por um lado demonstra, assim como outras iniciativas nos streamings, que as produções brasileiras não ficam nada a dever tecnicamente em comparação com as de outros países, por outro também possui problemas que o impedem de realmente correr em disparada. Acaba sendo uma produção que tropeça nos próprios pés.














