Logo na sequência de abertura de “Criadas“, somos confrontados com duas vias: a da raiva inflamatória ou a do didatismo anestésico. Isso porque vemos “A Redenção de Cam”, aquele elogio pictórico ao embranquecimento, que conhecemos das aulas de Sociologia, em chamas. Pouco sutil, sim, mas a falta de sutileza não é necessariamente um problema; a questão é se o filme vai ter a urgência e a pungência necessárias para sustentá-la, ou se vai ficar na mera ilustração de ideias.

Mas o longa escrito e dirigido por Carol Rodrigues opta por um caminho mais confuso: ele aposta na obviedade, ao mesmo tempo em que torna seu drama difuso ao apelar para o “psicológico”. Termo sempre desagradável porque costuma indicar que os realizadores estão desesperados à procura de alguma profundidade dramática. Na prática, significa uma pá de inserções com visões do passado e cenas de sonho.

Claro, é sempre possível usar tudo isso como trampolim para deixar a imaginação correr solta na hora de conceber um filme. Mas Rodrigues fica sempre no banal: não há nada, nenhuma imagem, nenhum gesto, nenhum momento criado por ela capaz de marcar nossa memória. Sua condução é absolutamente protocolar.

A fotógrafa Julia Zaika até que tenta alguma coisa: um contraluz aqui, um clarão laranja bombardeando a sala acolá, uma luz lilás inundando a cena noutro momento. Mas são momentos isolados, tentativas que não levam a lugar nenhum, que não nos fazem sentir nada. É como se o filme tateasse no escuro em busca de algo que lhe traga à vida.

Infelizmente, “Criadas” é um filme natimorto, e o grande culpado é o roteiro — não há nada mais triste do que um texto que mira no naturalismo e acerta no esquemático. É possível mesmo acompanhar o trabalho de engenharia reversa da roteirista ao longo da projeção: Rodrigues tenta forçosamente fazer os temas que lhe são caros caber no drama, à custa das personagens e da história. Como lhe falta tato para dramatizar as situações, cada mínima interação entre dois seres humanos que seja serve apenas para expor e reiterar este ou aquele aspecto temático.

E o pior é que o gancho do filme poderia render: duas primas, ambas negras, uma retinta e a outra de pele mais clara, se reencontram após décadas. A cozinheira Mari (Ana Flavia Cavalcanti) está mirando no cargo de sous-chef; já Sandra (Mawusi Tulani) está penando na escada corporativa como engenheira. Esta última carrega anos de cobranças e ressentimentos em relação à prima: quando crianças, sua mãe era mantida como criada na casa da tia. Eis o mote do longa.

Cavalcanti e Tulani, coitadas, não têm muito o que fazer como protagonistas. O roteiro exige que elas passem em um instante da camaradagem ao rancor, de acordo com os ditames da trama. É aí que entram os inserts “psicológicos”, menos como uma tentativa de aprofundamento das personagens, e mais como uma confissão de que o filme não tem muito para onde ir.

E é mais ou menos aí que tudo termina: no lugar-comum que antecipávamos com aquela sequência inicial. O filme tem até mesmo a pachorra de literalizar a pintura de Modesto Brocos lá pelas tantas, em uma das sofridas inserções psicológicas. “Criadas” pode até servir para ilustrar as aulas cansadas de professores mal remunerados, mas não espere aprender muita coisa que você já não saiba.