Luca Guadagnino tenta realizar duas coisas com seu “Depois da Caçada”: por um lado, quer tematizar os “perigos do cancelamento”. Por outro, procura expor o modo pelo qual os mais velhos reiteradamente falham em proteger quem os admira com brilho no olhar. Por que a tarefa dupla? É que, fazendo esse malabarismo, Guadagnino pode se comprazer em dizer que está tratando o tema de forma “complexa”.
Estamos no mundo acadêmico. Alma (Julia Roberts) é a professora de filosofia incumbida de orientar a tese de Maggie (Ayo Edebiri). Na periferia da relação, Hank (Andrew Garfield) é o professor bonachão que claramente flerta com as alunas. Tudo isso nos é apresentado na cena de abertura, um jantar elegante entre intelectuais que parece saído de um filme de Woody Allen (até a fonte dos créditos evoca os filmes do nova-iorquino). Exatamente o que Guadagnino pretende ao fazer referências a esse gigante caído do cinema não está muito claro — ainda mais diante do que vem a seguir. Certa noite, Hank acompanha Maggie a sua casa. Não sabemos o que acontece. O que sabemos é que, logo depois, a aluna o acusa de tê-la estuprado.
A trama se desenrola então como em um filme de tribunal, mas sem tribunal — um drama de disse-me-disse para os tempos de #MeToo. A coisa se complica: a vítima não é tão nobre quanto parece, a sua orientadora é uma carreirista fria e egoísta e um ressentimento de classe bastante justificável torna o agressor simpático aos nossos olhos.
Assim, as revelações se empilham. Até que, lá pelas tantas, em seu clímax emocional, Depois da Caçada parece finalmente se decidir: a vítima tem, sim, razão, e a disparidade de poder na relação impede qualquer princípio de consensualidade, etc. e etc.
Para chegar nesse ponto, contudo, o longa traça um caminho tortuoso. Quem se sai mal nessa história é Ayo Edebiri, que, com aquela expressão jocosa de falsa perplexidade e seu jeito sarcástico de desarmar a babaquice alheia (vide sua entrevista viral), é uma espécie de avatar da geração Z. Nesse caso, perguntamos: o que significa que ela seja caracterizada como uma riquinha mimada e uma acadêmica sem talento; como alguém que, segundo o filme, usa suas fichas identitárias como arma vingativa? Alguém que, conforme sua orientadora afirma, usa o interesse por causas sociais e o namoro com uma pessoa não-binária como forma de ganhar pontos morais no grande espetáculo midiático da performance política?
E mais: o que tirar do fato de que Depois da Caçada se desenrola sob a perspectiva de Alma, ou seja, da glamurosa e estelar Julia Roberts (fora, é claro, a perspectiva do próprio Guadagnino atrás das câmeras)? Ora, a atitude do italiano é capciosa: ele quer “complexificar” o tema com seus personagens falhos e quebradiços, mas ficamos com a impressão de que, quando a poderosíssima Julia Roberts dá um esporro na “mimizenta” Ayo Edebiri, deveríamos concordar e aplaudir. Afinal, já está no título: estamos tratando da ideia caquética do perigo de uma “caça às bruxas”, como Woody Allen (de novo ele) alertou à época da eclosão do #MeToo.
Não que não se possa criticar, digamos, os excessos das políticas identitárias, quando a falta e a reparação se tornam as únicas reivindicações possíveis: ora, o marxista Asad Haider tem feito carreira justamente demonstrando como essa estratégia da esquerda é facilmente cooptada pelos Poderes Maléficos do Capital. Acontece que Guadagnino está longe de ser o cara certo para o trampo. Ora, ele não gozaria de sua posição privilegiada entre os arautos do Bom Cinema, nesse lugar confortável entre o cult e o mainstream, se o fosse. Daí que suas tentativas de “matizar” o problema, de diversificar as perspectivas, apontam apenas para o caquetismo da sua própria visão.
Irônico, portanto, que, dada a temática do filme, ouçamos a voz de Caetano Veloso na trilha sonora. Poderia se tratar, ao lado de toda a vibe Woody Allen, de uma piscadela para a plateia, de uma provocação. Isso, é claro, se Guadagnino demonstrasse ter um pingo de autoconsciência sequer, coisa da qual parece incapaz.
Ao menos ele deixou para trás, momentaneamente que seja, sua preocupação com um pretenso “cinema sensual” (e a quem se eriçou com “Rivais”, “Queer” ou “Me Chame Pelo Seu Nome”, só posso lamentar que se satisfaçam com tão pouco tesão). E, melhor ainda, trouxe de volta a presença calorosa de Michael Stuhlbarg, sempre um bálsamo para os olhos cansados de tanta ladainha pseudo-relevante.
Cobertura do Cine Set do Festival do Rio 2025














