Jornada, afeto e reconhecimento. Essas três palavras são capazes de, superficialmente, descrever a produção de Mariellen Kuma sobre a escritora trans manauara Márcia Antonelli. Superficialmente, porque ao se debruçar sobre a jornada da escritora, as palavras se tornam alicerce e fio condutor para a trama e encontrar aquelas que melhor se encaixem ao processo apresentado por Kuma se torna quase uma trívia que possa descrever sua protagonista.
Antonelli relata suas vivências, desejos e vicissitudes embalada por clássicos da música nacional e internacional como Eleanor Rigby, dos Beatles. A narração em off que acompanha toda a trama, me passa a sensação de estar dentro da mente dos personagens, quando, na verdade, estamos envoltos não só das palavras, mas dos pensamentos de Antonelli. Cada vocábulo presente sob a gravação pertence a um trecho selecionado das publicações da transcritora manauara, nas quais ela relata os anseios, o preconceito e os desafios enfrentados por uma existência transfeminina em um país que mais assassina pessoas LGBTQI+.
A caminhada pelas ruas no centro de Manaus é alternada entre a Márcia do presente e seu jovem alter ego. A fotografia e a montagem buscam encontrar o tom ideal para que as imagens possam ter um apelo semelhante às palavras que soam na narração em off. A fotografia cria uma aproximação com a protagonista com travellings para acompanharmos seus passos como se fôssemos espectadores a espera da grande catarse que suas palavras indicam. Há ainda o uso de planos detalhes sobre o seu rosto, sereno e fechado, porque a madura Márcia está constantemente em movimento, observando o que a cidade tem a lhe contar. A montagem de Xan é criativa e inusual, emulando um scrapbook, como se realmente estivéssemos dentro de uma hq escrita e narrada por Antonelli. E é ai que narrativa ficcional e documentário se misturam.
Embora acompanhemos as aventuras do alter ego da transcritora, Kuma transforma seu projeto numa espécie de filme-processo, no qual seu maior interesse está em misturar a ficcionalização das obras da protagonista com uma espécie de homenagem e documentário. Prova disso é que há um corte na trajetória da personagem jovem para vermos uma entrevista dada por Márcia a direção do projeto. Mais adiante, somos expostos ao seu próprio making of, atestando o afeto e reconhecimento que o curta carrega em mostrar como majoritariamente a equipe envolvida no projeto é composta por homens trans e mulheres trans que não apenas compreendem a luta de Márcia, mas também veem na transcritora uma inspiração para suas próprias vivências.
Sinto, no entanto, que esse momento de troca entre equipe e protagonista perde um pouco a força da trama. Entendo a intenção da diretora no processo, mas há uma perda de tom e de ritmo, uma vez que o grande destaque da narrativa está nas palavras e obras de Márcia Antonelli. Contudo, é preciso salientar que a apresentação do set, como uma espécie de metalinguagem simbólica da produção, evidencia e reconhece um processo de perspectivas entre gerações de pessoas trans, o que é de um valor elevado, considerando o preconceito efervescente na cidade que silencia suas vozes e sua arte.
Neste aspecto, Márcia cresce ainda mais, uma vez que sua existência e resiliência são ícones inspiradores para os jovens artistas, que é coroada pela entrega da certidão de nascimento da transcritora. Evidenciando a importância da jornada e de sua figura para a comunidade. É desse modo que Kuma entrega um curta metragem que usa as palavras para dar o tom ao seu cinema e mostrar como a jornada, quando reconhecida, entrelaça afetos.













