Poucos cineastas contemporâneos conseguiram transformar a música em elemento narrativo com tanta sensibilidade quanto John Carney. Diretor de filmes cultuados como Apenas uma Vez, Mesmo se Nada der Certo e Sing Street, o irlandês construiu uma filmografia marcada por personagens imperfeitos, conexões humanas e canções que funcionam como extensão dos sentimentos de seus protagonistas.
Seu novo trabalho, Hit para Dois, segue essa tradição. O longa acompanha Rick (Paul Rudd), um cantor de casamentos que nunca abandonou o sonho de ser reconhecido como músico, e Danny (Nick Jonas), um ex-ídolo pop adolescente em busca de uma nova identidade artística. Ao aproximar dois homens em momentos distintos de suas trajetórias, Carney reflete sobre ambição, fracasso, amadurecimento e o papel da música na construção de quem somos.
Em entrevista ao Cine Set, o cineasta falou sobre a origem da história, sua predileção por personagens à margem do sucesso, a parceria de longa data com o compositor Gary Clark e a influência de Dublin em sua obra. Para ele, música e lugar são elementos inseparáveis — uma relação que continua no centro de Hit para Dois.
Cine Set – Como surgiu a ideia para a história de Hit para Dois?
John Carney – Estava à procura da minha próxima história observando as pessoas se movimentando pelo centro de Dublin. Vi um homem chegando de táxi com o filho; ele carregava uma guitarra no ombro e claramente estava levando a criança para a escola. Então comecei a imaginar quem era aquele sujeito. Ele usava óculos escuros, uma jaqueta de couro e tinha um visual bem rock and roll. Passei por ele e fiquei pensando em como seria a vida dele. Sabe, se a minha vida fosse tão simples assim — levar os filhos para a escola e seguir a rotina. Essa imagem acabou ficando na minha cabeça e foi aí que tudo começou.
Cine Set – Você conta histórias sobre personagens à margem. Como você enxerga a relação entre pessoas marginalizadas e a música?
John Carney — Eu prefiro histórias de azarões do que popstars. Ainda assim, gosto da relação entre pessoas que estão buscando sucesso com aquelas que já possuem. De certa forma, elas são iguais. Existe essa jornada, esse caminho que você precisa percorrer, passando por todas as etapas. Mas também há aqueles que continuam perseguindo o sucesso, tentando viver de música de forma independente, mesmo quando as coisas não dão certo. Ainda assim, eles mantêm na cabeça aquela ideia de sucesso, aquele lugar para onde querem chegar.
Não sei exatamente como é quando você olha para trás e avalia tudo isso, porque é algo complicado. Mas eu não vejo essas pessoas como figuras tão diferentes umas das outras. Na minha visão, elas são quase reflexos da mesma pessoa em momentos distintos da vida, como versões paralelas seguindo trajetórias diferentes.
Cine Set – Há três características presentes em todos os seus filmes: conexões, canções memoráveis e o compositor Gary Clark. Fale um pouco sobre sua parceria com ele em Hit para Dois?
John Carney – Gosto muito do Gary. Ele é um compositor extremamente despretensioso, sem ego, sabe? Não tem nada a provar, mas também não é excessivamente sensível em relação à composição. Ele é um compositor muito, muito bom e versátil, capaz de escrever praticamente qualquer coisa. Isso combina muito comigo, porque sou um contador de histórias, faço filmes com música e conto uma história diferente a cada vez. Considero minha relação com o Gary muito frutífera, porque é alguém que consegue desempenhar diferentes papéis com muita facilidade.
Cine Set – Sei que você é de Dublin, você fala sobre Dublin nos seus filmes. O que faz dela o lugar certo para as histórias que você quer contar?
John Carney – O lugar é um personagem muito importante nas minhas histórias, especialmente na música. Existe uma ligação muito forte entre a música e a cultura do local de onde ela surge, da cidade ou da região em que foi criada. Quando viajo, por exemplo, para a Espanha, às vezes descubro músicas locais muito específicas que eu nem sabia que existiam. Não são canções que aparecem no Spotify, no Apple Music ou em qualquer outra plataforma. Mesmo assim, elas fazem parte de uma cultura musical popular enorme, profundamente conectada ao contexto em que nasceram.
Por isso, acredito que música e lugar são coisas praticamente inseparáveis. A música tradicional irlandesa, por exemplo, não costuma viajar muito para além da Irlanda. Claro que existem exceções, mas, de modo geral, ela está ligada à geografia, ao ambiente e às pessoas daquele lugar. É o som das rochas, do mar, das paisagens e das experiências vividas ali. Tudo isso acaba se refletindo na música. O sentimento de um lugar transparece nas canções que ele produz. Para mim, essas duas coisas estão completamente fundidas uma na outra.












