Em 2018 “Rafiki” fez história no Festival de Cannes por ser o primeiro filme queniano a ser exibido na Croisette. Além disso, foi um dos poucos longas selecionados para uma mostra dirigido por uma mulher africana. E para completar, a própria existência de “Rafiki” gerou polêmica em seu país de origem devido a sua temática voltada ao relacionamento entre pessoas do mesmo sexo. No Quênia, a homossexualidade é tratada como um problema social e punível pelas leis do país africano em até 14 anos de prisão.

São várias as razões para que “Rafiki” conseguisse atrair a atenção de espectadores dos mais diversos cantos do planeta. Desde sua temática até a a chance em saber como é a visão cinematográfica de países africanos, porém, o interesse termina residindo somente nisso: na curiosidade. O longa não consegue apresentar um roteiro que consiga prender a atenção do espectador, caindo em diversos clichês de filmes de romance, além de contar com atuações irregulares que poderiam entregar uma obra mais potente.

Baseado em um conto ugandense chamado “Jambula Tree”, escrito por Monica Arac de Nyeko, “Rafiki” segue o romance entre Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva), duas jovens que vivem em uma região de subúrbio na capital Nairóbi. Ambas são filhos de políticos que estão concorrendo a uma vaga na Câmara de Deputados e logo percebesse que suas famílias são rivais. Boa parte da tensão entre a união das duas surge desse contexto político, mas deixado de lado rapidamente para melhor a relação das duas.

“Rafiki” busca lidar com diversos temas que são clássicos em filmes voltados a relacionamentos homossexuais como a intransigência da família e o preconceito da sociedade ao redor. Logo, o roteiro, da diretora Wanuri Kahiu e com a roteirista Jenna Cato Bass, acaba se tornando previsível neste sentido, pois, segue todas essas convenções: o período de flerte, o romance e em seguida, a separação por forças externas a elas. E isso nem poderia ser considerado spoiler, pois, como já foi dito, é uma estrutura seguida por esse tipo de filme.

OS PROBLEMAS DE “RAFIKI”

Caso o projeto entendesse isso e focasse no trabalho de direção e atores seria ótimo, porém, nem isso ocorre. Começando pelas intérpretes, as atrizes são bastante irregulares: Kena é construída como uma pessoa mais reservada, preocupada com as pessoas ao seu redor e o que elas irão achar dela, enquanto. Ziki é totalmente o oposto, tendo um espírito mais livre e mais aberta para querer mostrar a Kena o que ela realmente sente. No entanto, as duas acabam caindo em representações bastante literais, não dando brecha para alguma introspecção, uma reação mais espontânea. Se Kena tem que ser a pessoa mais séria, Samantha Mugatsia irá ficar com essa feição até o final de forma que parece ser algo mecanizado, e Sheila Munyiva segue o mesmo caminho.

Isso acaba enfraquecendo a direção de cena de Wanuri Kahiu que investe nesta artificialidade, refletindo em momentos bastante irregulares. No momento-chave de uma briga, por exemplo, são ouvidos diversos sons de pessoas ofegantes e uma câmera extremamente tremida, sendo bem difícil distinguir o que está acontecendo. A ideia de imersão no calor do conflito acaba sendo um tiro no pé.

O longa termina por investir também em alguns jump-cuts durante cenas de conversa que nada acrescentam ao estilo do filme, dando a entender que são de uso meramente estético. O mesmo se verifica em sequências ao ar livre, onde é aplicado um filtro roxo que acaba tendo o mesmo resultado. Por outro lado, a direção de arte ao expor uma cidade multicolorida e capazes de trazer estes detalhes para a caracterização de seus personagens, ainda que de forma fraca. Por serem filhas de políticos rivais, as duas protagonistas vestem as cores de suas respectivas famílias: Kena de verde e Ziki de Roxo.

Ainda que apresente problemas em sua condução, “Rafiki” não perde seu tom político ao criticar uma sociedade bastante machista e homofóbica. É bem louvável uma cena onde a mãe de Kena, que está com raiva da filha por descobrir que ela é lésbica, começa a brigar com a garota. Em seu discurso, parte de sua frustração reside não na escolha sexual de Kena, mas na pressão que a sociedade preconceituosa de Nairóbi exercerá.

Em um país onde a orientação sexual é considerada quase como um crime hediondo, a existência de “Rafiki”, mesmo com seus inúmeros problemas, acaba sendo um belo ponto de partida visando alguma possível mudança no Quênia. Caso não ocorra, fica o retrato de como é visto o preconceito com pessoas homossexuais fora do eixo EUA-Europa.

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