Há algo de misteriosamente antigo em Dry Leaf, novo filme de Alexandre Koberidze. Não apenas pela textura da imagem — gravada em um celular ultrapassado, que pixeliza os contornos e reduz o mundo a manchas de cor — mas pela maneira como ele parece filmar o próprio ato de lembrar. Cada plano carrega uma distância entre o que se vive e o que se conserva, entre o que se vê e o que se imagina. O cinema de Koberidze sempre se moveu nesse espaço entre o real e o encantado, mas aqui, ele parece buscar a materialidade do desaparecimento.

A trama é simples, quase um pretexto. Lisa, fotógrafa esportiva, some durante um projeto de registros de estádios rurais. O pai, Irakli, parte em busca da filha, acompanhado de Levani — um amigo invisível. A sinopse soa como fábula, e de fato é, mas não no sentido de fantasia; é uma fábula de texturas, de vazios, de sons que ecoam entre montanhas e estádios vazios. Em Dry Leaf, a invisibilidade não é truque narrativo, é uma condição existencial.

Koberidze já havia explorado o encantamento do cotidiano em O Que Vemos Quando Olhamos para o Céu?, onde o amor e o acaso se confundiam nas ruas de Kutaisi. Lá, o digital servia para revelar o mágico escondido na banalidade. Em Folha Seca, o mesmo gesto se torna melancólico: a imagem não revela mais o invisível, mas o esconde. O tempo que antes abria brechas para o milagre agora se deposita como poeira — um tempo de perda, de vestígios. A câmera, com seu aspecto precário, parece desistir de ver claramente; é como se o próprio cinema se curvasse ao esquecimento.

Essa escolha estética — filmar com um celular antigo, de imagem granulada — pode parecer provocação, mas é, acima de tudo, um gesto de sinceridade. A baixa resolução desestabiliza o olhar: obriga o espectador a preencher os espaços, a adivinhar rostos e paisagens. É um cinema da imaginação, não da precisão. Em meio a tanto realismo de alta definição, Koberidze propõe o contrário: ver menos para sentir mais. A imperfeição da imagem aproxima o filme da fragilidade das memórias, daquilo que o tempo sempre vai desfazer.

Os 186 minutos de duração soam desafiadores, mas é justamente nesse tempo dilatado que o filme respira. A jornada de Irakli e Levani é lenta, errante, quase espiritual. Os encontros — com camponeses, torcedores, mulheres que esperam — são fragmentos de uma Geórgia rural que parece existir fora da cronologia. O futebol, elemento recorrente na obra de Koberidze, reaparece aqui não como paixão, mas como ruína: estádios desbotados, traves enferrujadas, campos onde a infância se perdeu. O esporte é o esqueleto de um país que já foi sonho; agora, apenas lembrança.

Há um tipo de beleza que só existe quando o mundo está prestes a desaparecer. Folha Seca vive dessa beleza. O invisível de Levani é o mesmo invisível do cinema — o que vibra entre os quadros, o que não se filma, mas se sente. Koberidze, com sua delicadeza quase artesanal, continua acreditando que a poesia está nas margens: no vento que atravessa o campo, no som distante de uma bola, no rosto que a câmera não consegue mais distinguir.

Ao final, talvez a pergunta não seja se Lisa será encontrada, mas o que resta de um olhar quando tudo se torna imagem. Dry Leaf é, nesse sentido, um filme sobre o luto — o luto de ver demais, de lembrar demais, de perder o tato do mundo real. Um cinema que entende o desaparecimento não como fim, mas como estado natural das coisas.

Alexandre Koberidze transforma o pixel em poeira cósmica. E nesse borrão de cores, o espectador reencontra algo que o cinema contemporâneo tantas vezes esquece: o mistério de simplesmente olhar.