Yorgos Lathimos tem um humor peculiar e, nos últimos tempos, tem experimentado trazer essa especificidade para os diversos gêneros com os quais tem trabalhado. Com muita ousadia, criatividade e um pensamento por vezes incompreendido, o diretor grego faz filmes que chamam atenção do público e da crítica, além de trabalhar com atores que entregam performances excepcionais. Esse é o caso de Bugonia.
O projeto é estrelado por Emma Stone e Jesse Plemmons que vem de uma parceria já consolidada com o diretor grego — rendendo a estes prêmios como Cannes e Oscar —, aqui eles estão em lados opostos. Plemmons interpreta um homem obcecado por teoria da conspiração que, ao lado de Aidan Delbis, sequestra a CEO de uma grande empresa (Stone) por acreditar que ela é uma alienígena com pretensões de destruir a Terra.
A partir dessa premissa, Lanthimos traz para a discussão assuntos contemporâneos como a expansão das indústrias farmacêuticas, a destruição ambiental e o aumento do número de pessoas que acreditam em teorias da conspiração. O diretor usa o cinismo como embalagem para abordar o discurso da pós-verdade e seus agentes, representados em Bugonia por Teddy (Plemmons) e Michelle (Stone). Dessa forma, a personagem de Stone é intensa, rígida e possui ímpeto e sagacidade que acentuam a posição que ocupa. Por outro lado, Teddy é obtuso, preso em um mundo ilusório no qual se abriga a fim de fugir do que realmente possui: a mãe adoecida, o cuidado com o primo neurotípico e ainda ter que dar conta do cultivo das abelhas.
A atmosfera é intensificada pela trilha sonora envolvente que junto com a montagem dinâmica criam um incômodo que acontece em um crescente tão perturbador e misógino que, para mim, o humor e a crítica social não funcionam. Bugonia bebe de pequenas violências contra Michelle que são, na maioria dos casos, desnecessárias e sem grandes interferências particulares para a fluidez da narrativa. A sensação que tenho é que todos esses caminhos ocorrem em detrimento da compreensão e tentativa de acolhimento de Teddy.
A escolha é proposital e faz parte do invólucro de cinismo de Lanthimos. Uma vez que — tal acontece com Kleber Mendonça Filho em O Agente Secreto — esse parece ser o filme com maior diálogo comercial do diretor de “Dente Canino”. Além de ter dois atores queridinhos de Hollywood, a sua história flerta com subgêneros populares como filmes de sequestro, conspiração e ficção científica. Mais do que isso, no entanto, enquanto à personagem feminina cabe as agressões, Teddy tem nuances muito tangíveis com sujeitos e comportamentos contemporâneos. O isolamento social, o consumo de mídias e conteúdos conspiratórios e a crença de que há um indivíduo em posição de poder responsável por suas desgraças são identificadores de figuras que realmente se comportam assim, só lembrar, por exemplo, das crises de saúde que afetam os EUA devido a pais que não acreditam no benefício da vacinação. Esse perfil não está distante do personagem de Plemmons; há um acerto vívido na composição que o ator faz, especialmente pelo aceno com a realidade.
Isso me chama atenção porque há algo no seu diálogo corporal que me faz pensar na tolice do personagem, ao mesmo tempo em que suas ações revelam pouco a pouco o potencial destrutivo que a pós-verdade carrega. Há um diálogo que evidencia isso, quando Teddy afirma que aquela situação nunca tinha acontecido antes, no entanto não é isso que o filme nos revela. Lanthimos magistralmente está disposto a nos apresentar sua narrativa como se estivéssemos lendo um conto.
Nessa perspectiva, temos uma divisão evidente em duas camadas na qual Michelle e Teddy são o mesmo lado da moeda; poderia dizer que eles se misturam e ocupam posições complementares, o que realmente acontece, no entanto, olhando em retrospecto, seu perfil é o mesmo. Michelle, enquanto CEO, é uma predadora financeira. Enquanto Teddy, é uma vítima do sistema que falha com os que não estão no topo da pirâmide. Enquanto habitantes do guarda-chuva do capitalismo e todas as consequências que o sistema impõe, eles são vítimas e operários desse movimento.
O sistema está presente na camada mais interna da ideia de Bugonia como um conto. Sua presença assombra e rege toda a narrativa, mas não está tão exposta, quanto as pretensões de Teddy. Essa abordagem, o discurso fílmico como um todo e as atuações são as lembranças que permanecem quando os créditos sobem. Para mim, a violência contra Michelle, também.














