El Ser Querido faz um mergulho sobre a toxicidade que pode estar presente na masculinidade e na paternidade. A partir da tentativa de um pai se conectar com a filha com a qual nunca tivera contato, o espanhol Rodrigo Sorogoyen (As Bestas) constrói uma narrativa alicerçada na metalinguagem, no rancor e na tentativa de curar os erros do passado. O resultado é um projeto com atuações potentes de seus protagonistas, mas que falha quando não cria liga com as outras subtramas apresentadas.
Acompanhamos o diretor de cinema Esteban Martinez (Javier Bardem), que está produzindo um filme ambientado na década de 1930 sobre a exploração colonial da Espanha no Saara Ocidental. Para protagonizar o projeto, ele procura uma jovem atriz desconhecida, Emília (Victoria Luengo), sua filha com quem nunca conviveu e não vê há 13 anos.
O roteiro, também assinado por Sorogoyen em parceria com Isabel Peña, cria um tenso drama familiar que está desnudo para nós desde a primeira cena, a qual deixa evidente o espaço gigantesco existente entre pai e filha. Há um vazio que a fotografia em preto e branco, muito bem colocada, tenta nos mostrar nas entrelinhas. O ritmo entre eles é absurdo, a tensão presente em cada expressão, em cada linha hesitante da conversa e na comida mal tocada.
As performances são autênticas e perturbadoras. Há uma complexidade intensa nessa relação. Luengo, com sua pequenez física, torna tudo mais frágil e vulnerável, enquanto Esteban parece ser acolhedor e compreensível e, ao mesmo tempo, ardiloso. Eles estão constantemente sob tensão, mas, quando de alguma forma há algo que desenrole os nós formados entre eles, o diretor/roteirista parece não saber para onde levar os personagens, colocando-os em uma nova onda de tensão.
Nesse processo, a dupla Victoria Luengo e Javier Bardem cresce. O ator espanhol me assusta por facilmente alternar entre o cruel e o carismático, sendo o querido que consegue tudo o que quer, nem que para isso use a manipulação ou o “morde e assopra”, que parece ferir todos os que cedem e os que não cedem aos seus desejos. Isso cria uma sensação incômoda, porque transparece a toxicidade desse homem autocentrado, focado em si mesmo e que parece mais o vilão de qualquer história em que esteja presente — incluindo e principalmente a sua —, infectando tudo o que está ao seu redor.
Nesse aspecto, é interessante como Sorogoyen parte dessa questão familiar, que é micro, para mostrar como o comportamento doentio desse pai também atinge o seu campo de trabalho. Aqui, a metalinguagem é o grande motor, considerando que Esteban é um diretor de cinema reconhecido e rígido, tendendo a misturar vida pessoal e profissional a ponto de tornar cenas pequenas um espetáculo caótico de sua vontade constrangedora, mirando a perfeição e acertando o abuso psicológico. O que rende, ainda, uma das melhores cenas do longa-metragem.
Esteban tenta nos convencer de que seu comportamento tirânico no set é fruto de sua busca por perfeição, quando, na verdade, reflete a insegurança de um homem que quer manter o controle e o vê ruir quando sua filha não está sob o domínio de sua opinião. Bardem está aterrorizante, provando o quanto se destaca nesse projeto, mas tudo funciona também porque Luengo está grandiosa em sua tentativa de combatê-lo apenas com sua presença.
Por isso, El Ser Querido perde quando Emília vai para o segundo plano em detrimento do desmoronamento profissional de Esteban, quando a equipe, pouco a pouco, vai abandonando a produção do filme e as gravações de “Deserto” não correspondem à ideia inicial do diretor. “El ser querido” perde porque todos sofrem da mesma dificuldade — lidar com Esteban —, mas em nenhum momento há uma interação que mostre como isso os afeta como grupo, especialmente Emília, que parece apática e outsider dentro do próprio time, que passa por sofrimentos semelhantes aos dela.
Nessa esteira, El Ser Querido passa por uma comparação inevitável com Valor Sentimental, ambos relatando a história de pais que querem resgatar o relacionamento com as filhas por meio da arte. A diferença é que o filme espanhol está preocupado em mostrar como a masculinidade tóxica leva ao desmoronamento pessoal, um abismo muito grande da reparação familiar que Trier buscou em seu filme.














