O novo projeto de Andrey Zvyagintsev, responsável por “Leviatã” e “Loveless”, traz uma história de infidelidade e assassinato como metáfora para a Rússia contemporânea. O diretor mais uma vez utiliza questões do âmbito privado para denunciar as situações pelas quais passa sua terra natal; utilizando o cinismo e a corrupção, Minotauro evidencia o modo de vida de oligarcas russos.
Adaptando “La femme infidèle”, de Claude Chabrol, Zvyagintsev traz a narrativa para 2022, ano do início da guerra da Ucrânia. Cada empresário está sendo convocado a ceder um número x de servidores homens para compor o exército russo. Gleb (Dmitriy Mazurov) precisa liberar 14 de seus funcionários enquanto lida com as desconfianças em relação à esposa Galina (Iris Lebedeva). Dessa forma, para além de uma discussão politizada, o cineasta russo nos apresenta um filme sobre infidelidade e assassinato.
Nesse processo, a fotografia de Mikhail Krichman, parceiro regular de Zvyagintsev, é significativa para nos fazer compreender as relações entre espaço, luz, personagens e sentimentos. Há claramente uma frieza que acompanha esse núcleo familiar; a casa modernista, por exemplo, com móveis planejados, é grande, gélida e mostra como os membros desse clã moram debaixo do mesmo teto, mas não vivem juntos.
Galina é o retrato desse comportamento, uma vez que busca ser gentil com o esposo, o filho e a sogra, mas seu rosto entrega o tédio e como não se adequa mais a esse espaço. É impressionante o jogo de luzes sobre ela, mostrando que seus momentos de maior vivência estão na tela do celular e bem distantes da bonita casa em que habita.
Aos poucos, vamos descobrindo sua infidelidade entre mensagens no celular, mentiras sobre aonde vai e até encontros furtivos. Gleb parece mentir a si mesmo sobre a situação a fim de manter tudo sob controle, o que causaria certa simpatia com o empresário se não fosse por seu comportamento que beira um anti-heroísmo, considerando sua ambiguidade moral e suas ações motivadas por interesses próprios, egoísmo e vingança.
Seu comportamento adentra a esfera política e as metáforas comparativas ao governo Putin. A forma como ele resolve burlar o sistema para não perder seus 14 trabalhadores é um clássico de Nikolai Gogol, escritor russo que escreveu uma história na qual um homem enriquecia comprando escravizados já falecidos. Embora não chegue a esse ponto, Gleb vai se afundando enquanto tenta manter as aparências e o mundo em que acredita ainda de pé.
Apesar de suas incursões pela corrupção, o que chama mais atenção é a maneira como age quando encontra Anton (Yuriy Zavalnyouk), o homem com quem sua esposa mantém um caso. A maneira mecânica e, ao mesmo tempo, hilária como lida com a situação causa uma sensação de tensão que te deixa magnetizado pela cena e seus desdobramentos. É quando, finalmente, “Minotauro” se transforma em um thriller completo de crime, paixões ardentes e cenas memoráveis. Nesse aspecto, esse é o momento em que ficção e crise política se encontram por completo, uma vez que o empresário evidencia como a guerra naturaliza a violência.
Em Minotauro, Zvyagintsev prova mais uma vez seu olhar ácido sobre a situação política da Rússia, trazendo uma narrativa que superficialmente soa como um suspense sobre infidelidade, mas, em suas entranhas, revela o desespero de uma nação que escolheu entrar em guerra e ver sua casa ruir, como Galina e como Gleb.














