Há algo muito bonito e afetuoso na forma como os Javi – Javier Ambrossi e Javier Calvo — pensam o seu cinema. A dupla espanhola dirige e colabora ao lado de Alberto Conejero com o roteiro de La Bola Negra, um dos filmes mais interessantes que assisti no Festival de Cannes. A história acontece em três linhas do tempo diferentes que são atravessadas pela descoberta do “eu”, dor, paixão e desejo. Todos esses temas são possíveis ainda devido a homenagem que a produção faz a Federico Garcia Lorca, poeta e dramaturgo morto pelas forças nacionalistas durante a guerra civil espanhola.

Em 1937, acompanhamos Sebastian (Guitarricadelafuente), um jovem espanhol aliado as forças fascistas de Franco, encarregado de cuidar de Rafael (Miguel Bernardeau), um membro da resistência capturado pelo exército e em processo de recuperação. Em paralelo, temos Carlos (Milo Quifes), um rapaz que quer entrar para uma espécie de sociedade masculina, mas precisa revelar se é gay ou não. Por fim, acompanhamos Alberto (Carlos Gonzales) que recebe uma herança do avô que nunca conheceu e precisa cumprir uma missão deixada por ele.

A primeira hora de filme é difícil de acompanhar e de compreender como essas histórias podem estar interligadas e qual tipo de fico condutor existe entre elas. Admito que, nesse primeiro momento, me senti como na primeira temporada de Dark, sem conseguir me situar sobre em qual ano estávamos e porque pulou de maneira tão abrupta para a próxima narrativa, sem haver nenhum tipo de contextualização e preparo. Vejo este como o ponto mais fraco de “La Bola Negra”, o qual é resolvido de acordo com o afunilamento e desdobramento das histórias apresentadas.

Este desenvolvimento está diretamente associado a escolha que os personagens tomam, ao partir de um campo seguro, silenciado e amedrontado para seguir o caminho de seus desejos. A câmera de Gris Jordana (Biutiful) é a maior parceira nesse processo, alternando em planos e enquadramentos que são ao mesmo tempo grandiosos e extremamente intimistas, o que nos revela muito sobre a identidade dos co-protagonistas. Em uma das cenas de Carlos, por exemplo, ela opta por uma câmera da altura do calcanhar do adolescente que nos permite observar a opulência do espaço a qual ele fora convocado e quebrar toda a ideia que tínhamos dele; o seu andar e a leve curvatura do corpo diante do espaço nos dão esse vislumbre.

Não é só nos enquadramentos que ela os revela, mas também na escolha de cores e filtros. Alberto por exemplo, por ser um homem gay assumido — diferentemente dos outros co-protagonistas — e ter como principal drama a perca da criatividade e sua relação familiar, tem um filtro mais escuro que ganha cor conforme ele amadurece. Tudo isso acompanhado de uma trilha sonora sensível que tornam as cenas de maior escala visual quase um épico, especialmente quando estamos no período da guerra civil espanhola. Há uma plasticidade visual que torna muitos recortes verdadeiras pinturas com cores vívidas, sequências de prender os nossos olhos em tela e alimentar a tensão do que está sendo nos passado, independentes de momentos mais leves — como os poucos minutos estrelados por Penélope Cruz — ou a angústia que acompanha Sebastian.

Nesse entremeio, os Javi nos entregam uma história sobre paixão. A curiosidade de Sebastian, o anseio de Carlos e a apatia de Alberto se revelam lados opostos desse sentimento e da busca por encontrar o seu próprio eu; afinal como homens gays silenciados pela sociedade em que se inserem, cada fragmento desse revela a maneira como lidam com sua sexualidade. Carlos ainda de maneira frágil, Alberto como alguém que pode vivê-la livremente e Sebastian como quem não sabe quem é e nem nomear o que seu corpo e mente clamam.

E é neste momento que o roteiro recorre a Lorca. Um homem gay, revolucionário e um dos maiores poetas de sua geração. Lorca usava a literatura como arma para expor as injustiças sociais e expurgar seus sentimentos. Embora apenas nos últimos 15 anos sua sexualidade esteja como elemento importante nos estudos sobre suas obras, o dramaturgo não permitia ser silenciado, como os próprios Javi expõem no encontro dele com Rafael. Dessa forma, Lorca não apenas tem uma obra que finalmente exalta sua existência como se torna o grande fio condutor que une as três histórias paralelas que nos são apresentadas: histórias sobre paixão, dor e a descoberta do eu — do jeitinho que o dramaturgo gostava de escrever.

La Bola Negra se revela não apenas um dos projetos mais interessantes desta edição do Festival de Cannes, mas também a confirmação da maturidade artística de seus diretores, que demonstram domínio da linguagem cinematográfica ao transformar suas vivências como homens gays espanhóis em matéria-prima sensível, íntima e profundamente humana.