Lançada em 2019, Euphoria foi amplamente vista nos meses de pandemia. A continuação chegou de forma tardia quase três anos depois e, como se não fosse possível superar esse hiato, em 2026 a série retorna envolta de atrasos devido ao conflito de agenda dos atores, greve dos roteiristas e indecisões criativas do showrunner Sam Levinson. Assim, o lançamento dessa terceira e última parte carrega as preocupações acerca dos bastidores para os problemas da própria narrativa escolhida.
Tanto pelos excessos cometidos por Levinson em cenas explícitas de drogas e sexo, quanto pelo tom mais adulto que a temporada propõe, a apreensão do público com o capítulo final de Euphoria é compreensível, porém, exagerada neste primeiro episódio. Nele temos uma escolha importante do salto temporal, dando fôlego para nova leva de histórias, se distanciando totalmente daquilo já foi visto à exaustão na série.
Seguindo à risca sua proposta de mostrar uma juventude nua e crua, o primeiro episódio da temporada disseca a realidade pouco conveniente da vida após o ensino médio. Os primeiros minutos são marcados pela protagonista Rue (Zendaya) em uma falsa liberdade, a cena se assemelha a um sonho, com direito a trilha sonora que exprime exatamente esse sentimento aparente. Porém, logo Rue e o espectador lidam com a vida cruel destinada para a personagem e os custos de suas escolhas anteriores.
Essa cena sintetiza bem o episódio, o qual trata justamente desse choque com a realidade após a graduação escolar. E é interessante como em nenhum momento Euphoria faz questão de lembrar esses anos passados: não existem menções a baile de formatura, colação de grau, lembranças escolares e muito menos vislumbres do passado. Aqui apenas importam os personagens atuais e as consequências de seus atos.
A série, sobretudo, se mantém especialista em causar desconforto – e esse pode até ser visto como gratuito num primeiro momento como o tutorial sobre transporte de drogas – mas, esse extremo chega a algum lugar, ao local de crueldade e da natureza pouco gentil que a vida adulta traz.
Em uma apresentação dinâmica dos outros personagens, mesmo Lexi (Made Apatow) e Maddie (Alexa Demie), que possuem empregos respeitáveis, precisam lidar com a realidade de um mercado de trabalho limitado e empregos instáveis. Orbitando longe dos ofícios tradicionais, Cassie (Sydney Sweeney) é um dos pontos controversos desse episódio e, com certeza, da temporada.
Ao mesmo tempo que sua nova narrativa se distancia da Cassie vista com tanto potencial na primeira temporada e seus dramas particulares jogados à dependência da figura masculina representada por Nate (Jacob Elordi), ela conversa diretamente com questões sociais. Por mais fútil e caricata que seja, Cassie reflete a realidade de tantas pessoas em busca de lucro e fama através do TikTok e plataformas adultas.
Assistindo aos seus devaneios de “classe média suburbana” como a própria série pontua, é possível associar o comportamento a algumas subcelebridades brasileiras que seguiram o mesmo caminho. E não é somente neste aspecto onde a série começa a se aprofundar em questões contemporâneas, mas sim, ao manter em diversos momentos um subtexto político. Exemplo disto é a família tradicional estadunidense acolhendo Rue e a ironia de abrigarem justamente alguém que contribui com o narcotráfico e viola os muros impostos pelo governo na fronteira com o México.
Mesmo com um episódio voltado ao impacto da vida adulta cruel com personagens que ainda estão tentando se provar para alguém ou a si mesmos, existe também um pouco de esperança para essa realidade e, principalmente, para Rue. Como tantas pessoas, a protagonista se vê esgotada de chances palpáveis de melhora e volta sua mínima positividade para a religião como fonte de esperança.
É com esse teor que o episódio chega à cena final, ainda carregado da tensão construída pela fotografia de assinatura. Mesmo se tratando de um momento previsível, Levinson aproveita ao máximo a atuação de Zendaya enchendo a tela com suas expressões que facilmente transitam entre medo, esperança, alívio e tristeza.
Esse final ainda mantém a impressão de que as cenas chocantes entre gore e fetichismo se sobrepõem à qualidade narrativa, faltando refinamento visual, a trilha sonora marcante do artista Labrinth e mesmo a presença de Hunter Schafer como Jules. Ou seja, o episódio nos leva de volta para Euphoria e consegue prender nossa atenção para encarar mais um domingo em busca dos elementos que tornaram a série tão marcante.














