Frantz Fanon é uma das minhas principais referências em leituras obrigatórias sobre anticolonialismo e o ser negro em uma sociedade legalmente e orgulhosamente racista. Um pensador importante que transita em quaisquer narrativas e se você, caro leitor/a, se diz antirracista, recomendo urgentemente se debruçar sobre suas obras.

Em 2025, em alusão ao seu centenário, foi lançado o filme Fanon, chegando somente em 2026 aos cinemas tradicionais e aqui no Brasil. Dirigido pelo cineasta antilhano Jean-Claude Barny, a produção revive, em primeira pessoa, um recorte temporal focando no período em que Fanon atuou como chefe de divisão no hospital psiquiátrico de Blida-Joinville, na Argélia, durante a década de 1950. É a partir desse microcosmo de dor e opressão que o diretor (re)constrói o retrato do despertar revolucionário do intelectual.

Durante os longos 140 minutos, testemunhamos o nascimento de uma revolução, que começa do micro para o macro quando Fanon assume esta chefia, demonstrando, por entre os corredores das enfermarias, como o racismo estrutural, o presídio mental e literal e a violência colonial francesa adoeciam tanto os colonizados quanto os colonizadores. 

A guerra da Argélia é o grande pano de fundo que coloca o psicanalista no centro entre os rebeldes árabes e os colonizadores/ditadores franceses. Percebam que toda a guerra goza da prerrogativa de posse do território e oprimir vidas e liberdades de direito.

Esteticamente, o filme opta por uma crueza necessária. As cenas de violência colonial, implícitas ou explicitas, estão na contramão do que estamos acostumados quando pensamos em filmes hollywoodianos, por exemplo. A fotografia claustrofóbica do hospital ajuda a criar a atmosfera de urgência que impulsionou a escrita de obras fundamentais como Os Condenados da Terra, obra lançada semanas antes de sua morte em decorrência de complicações de leucemia em dezembro de 1961.

Contudo, é importante frisar que esta não é uma cinebiografia, mas um recorte de uma época da importância de Fanon naquele território em especifico. Porém, a direção coloca a jornada do herói acima de quaisquer opressões epistêmicas. Ele é humano demais, clean demais, o famigerado filme chapa branca.

E ainda há o negligenciamento de uma pessoa fundamental: Josie Fanon. Enquanto mulher e esposa, ela acaba relegada a enfeite e com duas ou outras frases de efeito. Nesse sentido, com pouco que tem em mãos, a atriz Déborah François oferece o suporte da mulher acolhedora, tão comum em filmes biográficos de homens, aqui, liderado pelo convincente Alexandre Bouyer como o personagem principal.

Fanon pode até ser um filme até interessante como porta de entrada ao pensamento social, político e decolonizador do filósofo. Fora isso, é um filme assintomático.