Mesmo depois de dois curtas de luxo (“A Voz Humana” e “Estranha Forma de Vida”), ainda é inusitado ouvir o texto de Pedro Almodóvar recitado em língua inglesa. Há algo que parece se perder na tradução, um quê de sedutor próprio das línguas latinas, especialmente com todos aqueles erres trinados e vibrantes. Algo, enfim, que se casa perfeitamente com a grife melodramática do espanhol. A pergunta que fica então é o que muda na sua marca em seu primeiro longa estadunidense, “O Quarto ao Lado”.

À primeira vista, pouco. A história de duas amigas, interpretadas por Tilda Swinton e Julianne Moore, que se reconectam durante o tratamento do câncer da primeira, tem início com os toques almodovarianos esperados. Há flashbacks reveladores, monólogos confessionais e um tom geral novelesco, onde os episódios dos personagens importam mais que qualquer estrutura convencional em três atos. A diferença, e isso provavelmente se deva mais à idade do diretor do que ao país de produção, é que há uma preocupação com a morte acentuada em cada plano do filme.

Assim, como “Dor e Glória”, “O Quarto ao Lado” é o filme de alguém velho e (pelo menos para si mesmo) moribundo. Mas há aqui um sentimento ausente naquele primeiro: a ideia de que é o próprio mundo que está à beira do abismo, algo dito explicitamente pelo acadêmico apocalíptico interpretado por John Turturro. Almodóvar filma a palidez de Tilda Swinton, coberta pelas camisas largas que usa para perambular na mansão onde escolheu passar seus últimos dias, como um fantasma que assombra um castelo. Nós já estamos mortos, e o pior é que também já sabemos.

É interessante ver o cineasta imerso nesse sombrio fatalismo, ainda mais de maneira tão claramente pessoal. Mas, embora o filme seja prenhe de pequenos prazeres (Swinton, Moore e Turturro estão bastante à vontade com o ritmo particular de suas falas), algo fica faltando. Melhor dizendo, é como se Almodóvar ainda estivesse batalhando pelas respostas enquanto faz “O Quarto ao Lado”.

O que, idealmente, é o que todo artista faria: não há nada pior do que se sentar para ver um filme e se deparar com uma palestra em seu lugar. Mas as questões que Almodóvar coloca já foram tratadas de forma mais incisiva em, digamos, “Fé Corrompida”, de Paul Schraeder, e não há nada de particularmente novo que a verve melodramática de Almodóvar injete à trama.

De certa forma, poderia se dizer até se tratar de um Almodóvar contido, apesar dos violinos bombásticos e onipresentes de Alberto Iglesias. As peças estão todas ali, mas o que fica ao final da projeção é uma certa sensação de frieza. O jeito é culpar o clima enevoado de Nova York.