Caio Pimenta traz os motivos que fortalecem Obsessão, terror sensação deste ano, na corrida pelo Oscar 2027.

DISPUTA NA FOCUS FEATURES

Dirigido por Curry Barker, Obsessão tem distribuição nos EUA da Focus Features. O estúdio possui mais dois candidatos de olho no Oscar 2027.

A nova versão de Razão e Sensibilidade é um deles. O romance clássico de Jane Austen será adaptado por Georgia Oakley desta vez. A protagonista é Daisy Edgar Jones, em um elenco que ainda conta com Caitríona Balfe e George McKay. Deve ser um dos filmes britânicos da temporada e, se for bem-sucedido, traz boas possibilidades em áreas técnicas como design de produção e figurino, além do elenco e roteiro adaptado.

O problema é o fantasma da adaptação conduzida por Ang Lee: no Oscar 1996, Razão e Sensibilidade obteve sete indicações, vencendo Melhor Roteiro Adaptado com Emma Thompson. Corre o risco de a Academia considerar que a versão com Kate Winslet tenha contemplado o clássico e opte por outros caminhos.

A Focus Features também irá investir em Elsinore. O drama de Simon Stone mostra a dedicação do ator Ian Charleson, conhecido mundialmente por Carruagens de Fogo, para interpretar Hamlet em uma temporada no National Theatre de Londres. Ele enfrentava a piora da saúde devido à aids, mas foi até o final com o espetáculo.

Nunca indicado ao Oscar, Andrew Scott já vem sendo apontado como um dos favoritos para a disputa de Melhor Ator. Acredito que os britânicos devem apoiá-lo rumo à vitória. Chega bastante credenciado e pode impulsionar “Elsinore” rumo a Melhor Filme.

Fica claro como “Obsessão” não terá vida fácil dentro da Focus Features, visto que se trata de duas produções de perfis mais tradicionais, capazes de dialogar com um público amplo dentro da Academia. Isso não significa, entretanto, que a produção será escanteada. Quatro fatores me fazem acreditar que o terror possa surpreender nesta temporada.

FATOR 1: CINEMA DE GÊNERO EM ALTA

O primeiro deles está no grande momento do cinema de gênero dentro da Academia.

O aumento de até 10 indicados a Melhor Filme permitiu uma diversidade maior de títulos na categoria máxima do Oscar. De lá para cá, a ficção científica apareceu com maior regularidade, como nos casos dos dois Avatar, de James Cameron, A Origem, Distrito 9, Gravidade, Perdido em Marte e Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo.

Tão estigmatizados, os filmes de ação conseguiram espaço com Mad Max: Estrada da Fúria, O Regresso, Top Gun: Maverick e F1. Até as produções em quadrinhos conseguiram suas vagas com Pantera Negra e Coringa.

E o que parecia impossível virou realidade: o terror brilhou no Oscar com os sucessos de Corra, A Substância e Pecadores. O gênero venceu categorias consideradas impossíveis de serem alcançadas, como Roteiro Original e Melhor Ator. Neste ano, por muito pouco, o longa de Ryan Coogler não fez história ao levar Melhor Filme.

A mudança no perfil da Academia, com a chegada de votantes mais jovens e o crescimento dos votantes internacionais, contribuiu para esta nova visão sobre o cinema de gênero. Nesta renovação, a entidade saiu de uma zona de conforto entre os filmes de época e os dramas modernos, dominantes ao longo da história do Oscar.

O aceno para o público por conta das bilheterias gigantescas destas produções completa o pacote favorável ao terror, ação e ficção científica. Logo, Obsessão se encaixaria muito bem nesta turma.

FATOR 2: URGÊNCIA DO TEMA

O segundo fator é sobre observar como a urgência dos tempos atuais casa com as abordagens trazidas pelos filmes de terror reconhecidos pelo Oscar.

Corra e Pecadores traziam discussões sobre racismo nos EUA, enquanto A Substância fala sobre etarismo e a pressão estética sobre as mulheres. Em um mundo cada vez mais radicalizado, o gênero está conseguindo tocar em feridas expostas na sociedade de forma intensa e inteligente, com metáforas claras.

Obsessão utiliza bases clássicas do terror – um brinquedo inofensivo causando o caos – e de um ponto de partida aparentemente banal para debater a frustração de homens ridículos e suas idealizações com mulheres para que sejam submissas a eles.

Isso tudo em uma época de alto conservadorismo e defesa de pautas medievais, como mulheres abdicarem do voto. A maneira como Curry Barker, diretor e roteirista, faz isso sem ser explícito, apenas elevando ao extremo o grau de dependência da protagonista, é de uma sagacidade rara. Em certos momentos, admito que até me questiono se ele tinha essa noção desta dimensão tão rica que “Obsessão” possui.

Ainda que a categoria esteja bastante disputada, a possibilidade de indicação em Melhor Roteiro Original é real.

Obsessão precisa que, pelo menos, um dos cinco favoritos à vaga vacile para chegar lá. Wild Horse Nine aparece hoje como favorito pelo histórico de Martin McDonagh na categoria – três indicações e uma vitória com Três Anúncios para um Crime.

Se Fjord surge credenciado pela Palma de Ouro, Jesse Eisenberg pode lembrar de quase ter ganhado Roteiro Original com A Verdadeira Dor. Logo, The Debut surge forte. Benemoth marca Tony Gilroy tentando voltar às pazes com a Academia após Conduta de Risco. E ainda tem Digger, com Alejandro González Iñarritu, premiado em Roteiro Original por Birdman em 2015. Correndo por fora aparecem Primetime e Elsinore.

Acredito que Obsessão tenha grandes possibilidades de reconhecimento na categoria. Tradicionalmente, a Academia prestigia produções mais fora da curva, pelo menos, com indicações em roteiro. Muitas vezes acaba sendo até uma consolação caso a produção não apareça em Melhor Filme ou Direção – foi assim com Entre Facas e Segredos, Foi Apenas um Acidente, Segredos de um Escândalo, entre outros.

FATOR 3: INDE NAVARRETTE

O terceiro fator atende por Inde Navarrette, a revelação de Hollywood em 2026.

Com apenas 25 anos, ela pode entrar em uma lista extensa de intérpretes belas e talentosas reconhecidas pela Academia ainda jovens. Foi assim com Jessica Lange, Jodie Foster, Jennifer Lawrence, Lupita Nyong’o e até Mikey Madison.

Navarrette está excelente em Obsessão como uma jovem carismática e divertida da primeira parte, se transformando na garota vulnerável, assustada e assustadora da reta final. É possível afirmar que grande parte da força do filme está na atuação dela, sendo impossível dissociar os dois.

Ela pode aproveitar a porta aberta por Daniel Kaluuya, Demi Moore e Michael B. Jordan de atuações vindas do terror indicadas ao Oscar. Por outro lado, há sempre os fantasmas das esnobadas a Toni Collette, Lupita Nyong’o, Florence Pugh, Essie Davis e Mia Goth.

Apesar de menos concorrido que nos últimos anos, a disputa de Melhor Atriz traz muitas concorrentes fortes e promete uma briga intensa pelas cinco vagas.

Julianne Moore, Renate Reinsve e Sandra Hüller duplamente surgem com boas possibilidades de indicações. Virginie Efira depende de uma campanha acertada da Neon para crescer por All of Sudden”. Nenhuma delas, entretanto, está em um filme popular como Navarrette.

Neste sentido, Emily Blunt pode ser a maior ameaça por Dia D. Mesmo com a ficção científica de Steven Spielberg dividindo opiniões, não dá para negar como a estrela está excelente e traz uma das melhores atuações da carreira. Fora que ela possui uma trajetória mais consolidada em Hollywood do que a protagonista de Obsessão.

Ainda há muita água para rolar com a chegada dos novos filmes de Daisy Edgar-Jones, Cynthia Erivo, Ruth Madeley e Olivia Colman. O cenário certamente irá mudar bastante. Ainda assim, considero que Navarrette deve fazer uma temporada sólida; imagino indicações ao Globo de Ouro e Critics Choice, pelo menos. Tem tudo para ser um dos nomes mais falados do fim de 2026 e início de 2027.

4. CELEBRAÇÃO DO RETORNO AOS CINEMAS

O quarto e último fator que pode ajudar Obsessão rumo ao Oscar 2026 é uma temporada que pode exaltar filmes que fizeram o público voltar aos cinemas. Afinal, este é o assunto principal da indústria em todo o planeta.

As marcas impressionantes de Homem-Aranha: Um Novo Dia e A Odisseia nos cinemas mundiais entusiasmaram a crítica e o mercado em relação ao interesse do público de assistir a filmes na telona. Obsessão é parte fundamental desta conversa: ao lado de Backrooms, a produção virou um fenômeno no primeiro semestre, com arrecadação nos EUA de US$ 263 milhões.

Para se ter uma ideia, a Focus Features nunca chegou sequer próximo destes números nos EUA. A maior bilheteria dela tinha sido na casa dos US$ 60, 70 milhões. Obsessão fez quatro vezes mais do que isso.

Se A Odisseia e Duna 3 são os candidatos claros das superproduções bilionárias de Hollywood, Obsessão pode servir para o Oscar mostrar como projetos baratos e criativos também podem levar multidões para os cinemas. Prevejo que o terror de Curry Baker dificilmente fique fora do PGA, o prêmio do Sindicato dos Produtores. Neste ano, o evento foi o responsável por impulsionar F1 para chegar a Melhor Filme.

Com uma temporada em que apenas o espanhol La Bola Negra aparece como o candidato internacional certo a Melhor Filme, a Academia pode reduzir a presença deles na categoria e abrir espaço para um grande sucesso de público como “Obsessão”. Hollywood certamente assinaria na hora esta hipótese.