“Feito Pipa”, novo filme de Allan Deberton que teve sua estreia mundial na Berlinale desse ano, é um delicado conto queer sobre a liberdade da infância e o duro processo de amadurecimento. Exibido na mostra Generation Kplus do evento, na qual venceu o Grande Prêmio do Júri Internacional e o Urso de Cristal, o longa pede para ser descoberto por um grande público.
Ele é centrado em Gugu (Yuri Gomes), um menino que passa seus dias no interior do Nordeste brasileiro sonhando em ser jogador de futebol e curtindo músicas pop com sua avó Dilma (Teca Pereira). Maroto, inteligente e de mentalidade independente, seu jeito pouco masculino o coloca em atrito com os bullies do colégio, bem como com seu pai Batista (Lázaro Ramos), com quem tem uma difícil relação.
Rotineiramente maquiado e usando roupas e acessórios super coloridos, Gugu representa, em muitos aspectos, o arquétipo da “criança viada”, abraçando comportamentos tidos como femininos pela sociedade ao redor. Porém, o roteiro de André Araújo é hábil em deixar áreas de sua personalidade em aberto, criando espaço para ele explorar suas possibilidades – algo que Deberton comentou, em entrevista ao Cine Set, que foi intencional durante a produção, até pela idade do personagem.
A decisão de ter um protagonista que marca o gol vencedor de seu time em um momento e dança ao som de Pabllo Vittar em outro ilustra o esforço do longa em evitar estereótipos entre seus personagens principais. Em Dilma, o público pode ver uma senhora que, para além de vó, é também uma mulher com dores e anseios próprios. Por sua vez, Batista encapsula um homem com ideias e atitudes repreensíveis que, nem por isso, é desprovido de amor pelo filho.
A grande preocupação da narrativa está nos esforços de Gugu em não morar com pai, mesmo com sua avó dando sinais de que não está mais apta a cuidar dele. De certa forma, cada um desses personagens está procurando demonstrar afeto aos demais a despeito de suas limitações – e o longa é bem-sucedido em colocá-los em situações que confrontam os limites do que eles podem oferecer uns aos outros.
No entanto, ele é ainda mais rico quando utiliza Gugu para questionar papeis de gênero de maneira simultaneamente inocente e incisiva. Para o menino, seu gosto por maquiagem e sua paixão por futebol não são mutuamente excludentes. A conversa que ele tem com sua meia-irmã no último ato, em que ele menciona que “não tem isso de coisa de menina e menino”, é o argumento chave do filme.
No papel principal, o estreante Gomes é nada menos que uma revelação. É impossível desgrudar os olhos da tela enquanto ele dá as respostas mais sagazes e cria as soluções mais engenhosas para seus problemas. A produção o captura em um momento em que ele tem que crescer rápido e jogar de igual para igual com os adultos para se impor e conseguir o que quer – e Gomes traz a mesma energia para sua interpretação. Suas cenas com Pereira e Ramos jamais deixam entrever que esse é seu primeiro trabalho.
Entre jogos de futebol e cantorias com a avó, há algo de inspirador na ideia de que crianças como Gugu (inclusive as maiores de idade) se vejam nas telonas assistindo às peripécias do garoto. Para além do público infantil, “Feito Pipa” é um filme que dialoga bem com (e, à sua maneira, homenageia) quaisquer pessoas que precisaram sonhar a sua própria identidade.
Crítica direta do Festival de Berlim 2026















