Durante nossa cobertura da Berlinale desse ano, o Cine Set conversou com Adolpho Veloso, primeiro brasileiro indicado ao Oscar de Melhor Fotografia. Ele estava na capital alemã para a estreia mundial de “Queen at Sea”, novo drama estrelado por Juliette Binoche que ele rodou em Londres em 2023 – um ano antes de “Sonhos de Trem”, longa de Clint Bentley pelo qual ele concorre à famosa estatueta dourada.

Durante nosso bate-papo, perguntamos ao diretor de fotografia sobre seus projetos atuais, suas expectativas para o Oscar e os cineastas com quem ele gostaria de colaborar.

Cine Set (Lucas Pistilli) – Pra começar, queria perguntar como você acha que “Queen at Sea” se compara com “Sonhos de Trem”.

Adolpho Veloso – “Queen at Sea” é bem diferente de “Sonhos de Trem”. Ele é um filme contemporâneo enquanto o “Sonhos de Trem” é mais épico. [Além disso], mesmo tendo sido filmado um ano antes de “Sonhos de Trem”, ele está saindo um ano depois e eu acho que isso foi o melhor [curso de ação]. Ele precisava de mais tempo, de um amadurecimento maior na montagem.

Cine Set (Lucas Pistilli) – Como foi assistir “Queen at Sea” junto com o público aqui em Berlim?

Adolpho Veloso – Eu assisti várias montagens dele e é difícil assisti-lo como espectador. Você sempre fica tentando achar o que está errado pra poder corrigir e você tem que sair desse modo de pensar. Vê-lo no cinema foi bom porque eu consegui um pouco entrar como espectador em alguns momentos. É um filme de que eu gosto muito. Ele tem um elenco incrível. Para além da Juliette Binoche (com quem foi um sonho ter trabalhado), tem o Tom Courtenay, a Anna Calder-Marshall e a Florence Hunt, que é uma potência que está chegando aí. Ela vai ser muito grande ainda.

Cine Set (Lucas Pistilli) – Como foi a sensação de gravar com esses atores?

Adolpho Veloso – Foi surreal. Lembro que eu ficava nervoso, porque gravações como essa parecem tão distantes [da realidade]. Lembro também quando eu contei pra minha mãe e pra minha irmã que eu ia fazer um filme com a Juliette Binoche. Acho que foi o dia mais feliz da vida delas no que diz respeito à minha carreira e elas sentiram muito orgulho. É muito incrível estar nessas situações e filmar com essas pessoas que eu admiro muito e que são gigantes no que elas fazem. No entanto, é uma responsabilidade também, porque assim, com um roteiro bom, uma história boa, uns atores desses, se alguma coisa dá errado, a culpa é minha [risos]. [Tendo dito isso], é importante estar ciente da situação em que você está, mas também reagir o máximo possível a ela. Acho que muito do meu trabalho é reagir ao que os outros estão fazendo, tentando ser invisível pra eles e ao mesmo tempo assegurando-os que estou 100% ali pra capturar o que eles dão.

Cine Set (Lucas Pistilli) – Tendo trabalhado com a Juliette Binoche, quais atores e diretores com quem você ainda gostaria muito de trabalhar?

Adolpho Veloso – Eu adoraria filmar com o Wagner [Moura], não só por ser ele, mas também porque pude conhecê-lo nessa corrida do Oscar e ele realmente é uma pessoa muito incrível.

Cine Set (Lucas Pistilli) – Com essa escolha, abrem-se as possibilidades de vocês colaborarem em um projeto brasileiro ou internacional, né? Você colaborou com o Heitor Dhalia no Brasil um tempo atrás, mas tem feito produções internacionais recentemente. Tem algum diretor brasileiro com quem você gostaria de colaborar hoje?

Adolpho Veloso – Adoraria fazer um filme no Brasil. Acho que o fato de meus últimos filmes terem sido feitos fora foi algo circunstancial. Tem vários diretores brasileiros que eu amo muito, como o Karim Aïnouz, a Anna Muylaert, o Walter Salles, o próprio Kleber [Mendonça Filho]… o Gabriel Mascaro, de quem eu falo bastante… Amo muito “Boi Neon” e eu adoraria filmar com ele. Tem novos nomes que estão vindo também. Acho que o cinema brasileiro vai vir com uma boa leva agora e eu adoraria fazer parte disso.

Cine Set (Lucas Pistilli) – A meu ver, você já faz parte dessa leva. “Sonhos de Trem” o tornou o primeiro diretor de fotografia brasileiro indicado ao Bafta e ao Oscar. Você também foi premiado no Critics’ Choice Awards e no Independent Spirit Awards por seu trabalho nesse filme. Como você reflete sobre ser o brasileiro que está ganhando esses espaços?

Adolpho Veloso – Fico muito feliz com esse reconhecimento, principalmente por tudo o que isso traz de atenção pro filme. Meu trabalho é uma pequena parte de um esforço de muita gente. As premiações são incríveis porque a gente que trabalha com cinema – e arte, de maneira geral – lida muito mais com falhas do que com acertos. São tantos momentos em que as coisas dão errado que, quando elas dão certo, é quase difícil de acreditar. Por isso, eu acho que esse tipo de reconhecimento é importante até pra nos dar forças pra seguir em frente. É uma visão pessimista, mas é verdade.

Cine Set (Lucas Pistilli) – O que leva você a ter essa visão pessimista?

Adolpho Veloso – Quando você faz um filme, a despeito do quanto amor e esforço você pôs nele, você não faz a menor ideia de como ele vai ser recebido. É muito difícil achar que um filme está pronto. Você pode fazer como um Terrence Malick da vida e ficar seis anos editando, mas é raro você ter essa liberdade. A maioria dos filmes precisam ser lançados e chega um momento em que você se dá conta que, filme pronto ou não, esse é o tempo que você tinha pra fazê-lo e ele precisa ir pro mundo, mas eu acho isso bom também. Faz parte [do processo] um filme ser lançado e as pessoas o receberem do jeito delas.

Cine Set (Lucas Pistilli) – O que você mais gosta dessa parte do fazer cinema?

Adolpho Veloso – Acho que é ver o quanto as pessoas se identificam com coisas totalmente diferentes em um filme. Sobre “Sonhos de Trem”, por exemplo, tem um monte de coisas que eu leio – seja em reviews do Letterboxd, seja em coisas que me escrevem – com as quais eu me identifiquei também na história e que são as razões pelas quais eu quis fazer o filme, mas também tem um monte de coisas que as pessoas me escrevem que eu fico: “nossa, não tinha pensado nisso”. Acho isso incrível.

Cine Set (Lucas Pistilli) – Ainda sobre “Sonhos de Trem”, como você está lidando com a expectativa relacionada aos prêmios aos quais o filme está concorrendo, incluindo o seu?

Adolpho Veloso – Eu estava muito ansioso às vésperas da indicação [ao Oscar], porque eu sabia que tinha chances, mas é muito difícil saber quantas chances você tem de fato e se isso vai rolar ou não. Existia uma pressão de todo mundo falando que tinha certeza que eu ia ser indicado e eu não queria criar nenhuma expectativa. Eu fiquei realmente ansioso com todo o processo, mas agora estou muito feliz com as indicações, tanto do Oscar quanto do Bafta. Elas já são uma conquista tão grande, tanto pro filme quanto pro meu trabalho, que sinceramente, o que vier agora é lucro. Eu já estou muito contente. Acho que é muito difícil ganhar e, entre os outros filmes indicados, existem trabalhos incríveis de pessoas que eu admiro muito, então só de estar na mesma lista dessas pessoas é gratificante.

Cine Set (Lucas Pistilli) – Olhando para além do Oscar, você tem “Remain”, novo filme de M. Night Shyamalan, no gatilho. Ele já está pronto?

Adolpho Veloso – A gente já o filmou ano passado e eles estão montando o filme agora. Vai sair em fevereiro [de 2027]. Eu não posso dizer muito [risos], mas é um filme com o Jake Gyllenhaal e a Phoebe Dynevor…

Cine Set (Lucas Pistilli) – E grande elenco…

Adolpho Veloso – E grande elenco… Muitas confusões… [risos] A gente filmou em Vistavision, que foi um processo complicado mas eu acho que vai ser interessante. Eu não vi o filme ainda. Por ser um filme do Shyamalan, existe toda uma questão do filme não vazar, então, pra assistir ao filme, eu basicamente tenho que ir lá pra Filadélfia e, com tudo o que está acontecendo agora, está sendo muito difícil parar pra fazer isso.

Cine Set (Lucas Pistilli) – E depois do “Remain”, você já tem outro projeto em vista?

Adolpho Veloso – Ainda não. Eu estou muito em função da campanha [de prêmios] do “Sonhos de Trem”. Fiz essa parada de dois dias aqui em Berlim no caminho pra Londres, por conta do Bafta, e eu não vejo a hora de tirar umas férias depois de tudo isso e de ter tempo, não só de ler os roteiros [que me mandam] mas também de entender qual filme faz sentido fazer agora. Vou precisar de tempo para entender qual é o melhor próximo passo.