Desbravando universos inteiros a partir de um exame de ressonância magnética, “Fiz um Foguete Imaginando Que Você Vinha” é uma aventura que passeia, em livre associação, entre desejos e lembranças. O longa de estreia de Janaína Marques, que teve sua estreia mundial na mostra Forum da Berlinale deste ano (onde venceu o Prêmio do Júri dos leitores do jornal Tagesspiegel), é experimental em sua forma sem abrir mão da força emocional de seu conteúdo.

Ele se foca em Rosa (Verônica Cavalcanti), que mergulha nos recônditos de sua mente para processar sua relação com a mãe Dalva (Janaína Souza), de quem foi separada durante a infância. Quando o processo a lança em uma jornada para se reconectar com a sua genitora, Rosa se vê exposta a realidades – tanto fáticas quanto imaginadas – que a colocam não só em contato com a vida interior de sua mãe, mas também com a de si mesma.

A produção impacta ao retratar essas realidades através de um Nordeste mítico, usando plenamente o potencial imagético da região. Marques, em colaboração com o diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo, faz das dunas e dos motéis de beira de estrada símbolos da solidão e do senso de transgressão de Rosa e Dalva. No seu uso de simetrias e cores ricas, o resultado traz o espírito das pinturas de Edward Hopper ao filme – uma referência sobre a qual o Cine Set conversou com a diretora durante a Berlinale.

Fiz um Foguete Imaginando Que Você Vinha, no entanto, não é apenas subtexto. Para além do apuro estético, o roteiro de Pablo Arellano, Pedro Candido, Taís Monteiro e Xenia Rivery fala (e muito) sobre independência feminina, violência doméstica e o alto preço de certas escolhas. Em Dalva, ele tem uma personagem cuja vida muda por conta de uma decisão fatídica, mas que mostra resiliência, ânsia por mudança e uma disposição para força bruta caso a situação peça. Não à toa, o tema dela seja “Sangue Latino”, clássico não-conformista dos Secos e Molhados.

Já Rosa, enquanto protagonista, reforça a conexão que o longa tem com a obra do cineasta David Lynch: ela é uma mulher ferida atravessando o deserto de sua alma em busca de uma ideia mais clara sobre quem ela é. Em sua narrativa cíclica e elíptica, em que Rosa e Dalva se abrem a transformadoras experiências queer e aparecem em várias versões de si mesmas, o filme se assemelha a um mash-up entre “Thelma e Louise” e “A Estrada Perdida” no interior brasileiro.

Marques é criativa e habilidosa em montar essa road trip psicológica de forma a nunca deixar o público completamente à deriva em um mar de imagens bem construídas. Há muito deleite e mistério nas ambiguidades de “Fiz um Foguete Imaginando Que Você Vinha”, mas quanto ao poder que alguém tem de relembrar e ressignificar sua vida, o longa não deixa nenhuma dúvida.