Uma das coisas que me conquistaram em Eles Vão Te Matar, logo após os quinze minutos iniciais, foi a energia caótica que o diretor russo Kirill Sokolov emprega no filme. Se há algo difícil de criar na Hollywood do entretenimento atual, é um produto genuíno que te mantenha conectado com ele por pelo menos duas horas.

Nesse sentido, o novo longa do cineasta — responsável pelo divertido Morra (2018) — é uma mistura insana de ação, vingança e terror social com elementos de sobrevivência, revestida por uma estética visual acachapante, em que o principal objetivo é oferecer uma diversão genuína na sala escura do cinema.

Sokolov entrega uma trama simples ao apresentar Asia (Zazie Beetz, de Coringa e da ótima série Atlanta), uma mulher que aceita trabalhar como doméstica no edifício Virgil, um prédio de estrutura antiga e sombria localizado no coração de Nova York e habitado por parte da elite americana durante décadas. Os motivos de sua presença no local, juntamente com os segredos ligados a um culto satânico, serão mostrados aos poucos, por meio de flashbacks estruturados em capítulos.

Após os quinze minutos iniciais, atmosféricos e repletos de elementos excêntricos — dos inquilinos à arquitetura que faz parte do Virgil —, Eles Vão Te Matar transforma sua premissa em caos puro, com violência e litros de sangue sendo despejados diante do público, talvez por conta da presença dos produtores, os irmãos Andy e Barbara Muschietti, responsáveis pela versão cinematográfica de IT – A Coisa e da série Bem-vindos a Derry, ambos conhecidos pelo apreço ao terror gráfico.

O filme constrói uma sucessão de situações excêntricas e surpreendentes — tanto no campo narrativo quanto no visual — à medida que flerta com o cinema sobrenatural satânico. O roteiro, escrito pelo diretor em parceria com Alex Litvak, funciona como uma coletânea do que há de mais pop no cinema de gênero dos últimos 20 anos: a vingança de Asia traz a mesma vibração da Noiva de Kill Bill, de Tarantino; a ação é encenada nos trejeitos do universo de John Wick; e a atmosfera sobrenatural dialoga com clássicos como Suspiria, de Argento, e O Bebê de Rosemary, de Polanski. Até mesmo o terror de sobrevivência e a questão racial reverencia as obras de Jordan Peele.

Se, por um lado, Eles Vão Te Matar não é inovador em sua proposta, por outro, é extremamente competente em produzir um cinema de ação irreverente, que se apropria dos movimentos ágeis de câmera para transformar a violência em um entretenimento sedutor, fazendo bom uso do embate entre heroína e assassinos para enriquecer sua mitologia satânica.

É interessante como Sokolov utiliza a trilha sonora, sempre em momentos oportunos, para quebrar expectativas, adequando-a à sua câmera orgânica. A partir disso, a ação ganha contornos subversivos ao abraçar uma violência absurda, que se esbalda nas coreografias de luta e nos membros decepados (dedos, mãos, pés e cabeças) que fazem jorrar o sangue na tela.

De certa forma, enquadramentos de câmera frenéticos — que abusam do uso de lente grande angular em corredores e do slow motion em planos abertos — reforçam o estilo do diretor, enquanto deixam a crítica racial mais sutil para o espectador atento.

Beetz está muito bem como final girl, representando a mulher negra que, na posição de pária social, assume o papel de justiceira ao devolver a doses cavalares a violência racial praticada pela elite. Por fim, o trabalho de montagem, mesmo com flashbacks didáticos, é pontual e eficaz ao traduzir o elo emocional entre as irmãs.

É claro que Eles Vão Te Matar pode cansar em alguns momentos pela repetição da fórmula — o chamado problema do “trabalho de uma nota só” —, mas isso não impede o público de sair satisfeito da sessão, envolvido por um prazer quase perverso que ecoa da brutalidade e do espetáculo visual imediato. Mérito de Sokolov, que extrai da premissa básica maneiras criativas de executar o material a partir de um estilo muito próprio.

Um entretenimento para se divertir de maneira inconsequente, especialmente quando o exagero assume as rédeas. No fundo, o cinema de gênero precisa de mais filmes sobre cultos malignos.