No Lugar da Outra, produção da Netflix e indicação do Chile para uma vaga ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, é um drama sob a condição feminina, que pega emprestado um caso real da crônica policial do país para trabalhar seus temas. É um filme em vários momentos bonito e singelo, mas, ao final dele, o espectador fica com a sensação de que faltou algo na experiência.
A história se passa em meados dos anos 1950: Mercedes (vivida por Elisa Zulueta) é uma auxiliar judiciária que leva uma vida infeliz cercada de figuras masculinas. Seu marido, seus filhos jovens e o juiz para quem ela trabalha ficariam perdidos sem a presença e o trabalho administrativo dela. Um dia, acontece um crime de impacto nacional: a escritora Maria Carolina Geel (Francisca Lewin), uma das mais famosas autoras da época, mata o amante a tiros na frente de várias testemunhas no saguão de um hotel chique. Ela é presa e, ao longo da investigação, Mercedes vai ter acesso ao apartamento e à vida da criminosa, começando a questionar a sua própria.
O crime que o longa retrata realmente aconteceu e teve grande repercussão na sociedade chilena da época. Era o tipo de história que a diretora Maite Alberdi, autora dos documentários indicados ao Oscar “Agente Duplo” (2020) e “A Memória Infinita” (2023), poderia se interessar. Aqui, no entanto, ela cria uma moldura ficcional – a história da doce e submissa protagonista – para abordar o papel da mulher na sociedade chilena daquela época.
Essa abordagem funciona em certa medida principalmente pela bela atuação da atriz principal. Elisa Zulueta tem um daqueles rostos expressivos que a câmera adora e é capaz de dizer muito com ele, apenas mexendo os olhos ou alterando levemente a expressão. Mas há momentos em que sua personagem extravasa as emoções e eles também são retratados com sensibilidade e contenção pela atriz. É um filme onde as emoções ficam logo abaixo da superfície e, mesmo assim, o roteiro e a direção ainda conseguem introduzir uns toques de humor em alguns momentos.
Visualmente, No Lugar da Outra também é eficaz ao explorar a oposição entre contrastes: em um momento, o ambiente apertado e monocromático da casa da família de Mercedes a oprime – e também ao espectador. No outro, o apartamento iluminado da escritora, com várias plantas e cores, representa o alívio de que a nossa protagonista precisa. Há também um eficiente trabalho com figurinos, retratando as mudanças sutis pelas quais Mercedes passa ao longo da trama.
Porém, também é uma pena que o trabalho de fotografia do filme, de autoria de Sergio Armstrong, parece ter de seguir a infame “cartilha visual” da Netflix – se você não sabe o que é isso, leitor, recomendo a leitura deste artigo. A fotografia de No Lugar da Outra é digital demais, artificial, como um comercial de margarina engessado em algumas cenas, e isso prejudica o envolvimento numa história onde a personagem em várias cenas vive no seu próprio mundo. Falta um pouco mais de excentricidade, de originalidade, nesse aspecto do filme.
Além disso, esse é o tipo de material que poderia gerar mais suspense e envolvimento. No fim das contas, os atos de Mercedes não têm consequência no filme. Os conflitos, embora esboçados, não têm muita força dentro da narrativa. A passividade da protagonista se mantém. Isso pode até ser fiel ao contexto histórico, mas produz uma narrativa que não engaja tanto quanto poderia.
Ao final, No Lugar da Outra não é um filme ruim, e é perfeitamente satisfatório. No entanto, também falta algo para torná-lo de fato memorável. Parece que a diretora acabou resolvendo contar a história errada: talvez a narrativa da escritora bem sucedida que matou seu namorado, pelas razões apresentadas por ela, e toda a repercussão posterior do crime, fosse a mais interessante. A montagem de várias cenas ao final, com recortes de jornal da época, acaba apontando para isso. E ficamos com mais curiosidade para saber sobre essa figura do que sobre a dócil personagem que acompanhamos até então.














