AVISO: texto contém SPOILERS
Personagem de Florence Pugh em Viúva Negra e Thunderbolts, Yelena Belova faz uma participação especial em Homem-Aranha: Um Novo Dia. Logo de cara, ela tira uma onda com o aracnídeo que o rapaz era responsável por cuidar de pequenos casos em Nova York. Os grandes desafios ficavam a cargo dela e dos novos Vingadores.
Como toda brincadeira possui um fundo de verdade, a zoeira de Yelena se encaixa perfeitamente para esta quarta aventura protagonizada por Tom Holland. Homem-Aranha: Um Novo Dia se desenvolve bem quando o amigo da vizinhança lida com o dia a dia do crime em Nova York e na solidão de Peter Parker em um mundo sem o melhor amigo Ned (Jacob Batalon) e a namorada MJ (Zendaya). O problema é quando precisa o longa precisa pagar pedágio para o Universo Marvel e tudo desanda.
Os primeiros 40 minutos de Um Novo Dia são os melhores dos filmes-solo do Homem-Aranha na Marvel. Pulando de uma sequência de ação para outra enquanto mescla com a vida solitária de Peter Parker, temos uma dimensão dos perrengues e sacrifícios feitos pelo herói. Por mais simpático e solícito que possa ser, há um preço cobrado para lutar contra todo tipo de criminoso e se pendurar pelos prédios de Nova York.
Sempre que está sem a máscara, o abatimento proveniente do cansaço de estar sempre a postos, dia e noite, e o corpo cheio de escoriações e marcas de pancadas denunciam quão no limite o personagem de Holland se encontra. Verdade seja dita que não chega a ser novidade dentro dos filmes do herói – lembra do Tobey Maguire emo de Homem-Aranha 3? -, mas funciona muito bem em Um Novo Dia, especialmente quando o diretor Destin Daniel Cretton no coloca dentro do uniforme do aracnídeo para acompanhar uma crise de ansiedade palpável.
Pena o filme não investir mais nisso e propor questões mais ricas – o preço de ser um super-herói para um adolescente – para precisar acertar as contas com o passado de Peter Parker e, principalmente, com o Universo Marvel. E justamente aqui a situação começa a se complicar.
Dupla de roteiristas dos filmes recentes do Homem-Aranha, Chris McKenna e Erik Sommers dão demonstrações claras de falta de ideias para como reunir o herói, Ned e MJ novamente. Sobram encontros que iriam fazer a alegria de Manoel Carlos com Nova York se resumindo aos mesmos locais, onde pessoas se veem convenientemente em horários idênticos. Chega a ser tão descarado a partir de um momento que só resta entrar na galhofa e aceitar.
Um Novo Dia parece ainda sempre caminhar em uma zona de conforto para fazer as peças voltarem a se encaixar a ponto de diminuir os acontecimentos de Sem Volta para Casa. Sabemos que aquele romance de Zendaya não vai para frente (ele aparece uma vez e some) e Ned está ali sempre à disposição. Não parece ser difícil para Peter recuperar aquelas amizades, tirando um pouco do peso do drama apresentado ao longo do filme.
Nada se compara, entretanto, à necessidade que Um Novo Dia precisa fazer para se encaixar ao Universo Marvel. O lançamento deste novo Homem-Aranha acontece a pouco mais de quatro meses de Vingadores: Doomsday, aventura que irá reunir os heróis clássicos com as novas adesões do estúdio, entre eles, o Quarteto Fantástico, Thunderbolts e os X-Men. Desta turma mais recente, os dois primeiros tiveram produções solos, enquanto os mutantes contam com a memória dos longas com Hugh Jackman, Patrick Stewart, Ian McKellen, Michael Fassbender e James McAvoy.
Ainda assim, há personagens que precisam de novas introduções para a chegada de intérpretes diferentes dos originais. Eis que Um Novo Dia acaba por pagar este preço e renuncia a parte daquilo que vinha construindo com o peso de Peter Parker em ser o Homem-Aranha para vermos todo o poder e os traumas de Jean Grey. Interpretada por Sadie Sink, a personagem surge como a vilã pela sua telepatia controlar todos aqueles que cheguem a 10 metros de distância dela.
Diante de dois personagens clássicos do universo dos quadrinhos, Um Novo Dia se mostra incapaz de balancear ambas as histórias. Toda a preocupação com Peter Parker aos poucos vai perdendo espaço para dar vez à trama sobre o V-Max e o passado de Grey. Mesmo assim, a história da mutante acaba sendo tão atropelada e superficial que pouco gera empatia com ela.
Na reta final, o desequilíbrio fica tão gritante que o Homem-Aranha chega a ficar um bom tempo fora de cena para vermos todo o passado da mutante e o trauma que carrega. Apesar da boa luta contra os Tentáculos, a resolução para o clímax passa aquele clima de autoajuda e de tanto drama para pouca coisa acontecer de fato. Sorte de Grey ter todo um passado dos filmes anteriores e ser uma das personagens mais queridas de X-Men para alguém se importar com ela no novo Vingadores.
Homem-Aranha: Um Novo Dia deixa um gosto amargo ao terminar: coloca uma história promissora de lado para ter que inserir Jean Grey, Hulk e qualquer outro personagem do Universo Marvel na marra para fechar pontas mirando o grande evento do estúdio no fim de 2026. Talvez fosse melhor mesmo ficar com os bandidos peixes pequenos como bem orientou Belova…
















