Na última cerimônia do BAFTA, o jovem Robert Aramayo, de 33 anos, abocanhou a estatueta mais importante do Reino Unido, deixando o obstinado Timothée Chalamet no chinelo. Mas talvez o acontecimento mais bombástico da premiação tenha sido a injúria racial proferida aos berros contra Delroy Lindo e Michael B. Jordan, que subiram ao palco para apresentar a categoria de efeitos visuais.
Os xingamentos vieram da boca de John Davidson, ativista com síndrome de Tourette que serviu justamente de base para o personagem interpretado por Aramayo em I Swear. Davidson, que já havia gritado impropérios contra o apresentador da noite, Alan Cummings, sofre de uma rara condição dentre os diagnosticados com Tourette: coprolalia, um tique involuntário que envolve o grito de palavrões e outros dizeres altamente inapropriados.
É uma sinuca-de-bico que precisamos discutir coletivamente. Davidson, como qualquer ser humano — e, mais ainda, como um dos cabeças por trás de um dos filmes vencedores da noite — tinha todo o direito de estar ali, e, mais ainda, de participar da vida em sociedade. Por outro lado, é inegável que Jordan e Lindo foram postos em uma posição extremamente humilhante em cima do palco — algo que a inexplicável decisão da BBC de manter o berro de Davidson na transmissão, que era gravada, só fez piorar.
Relatos informam que, antes da cerimônia começar, produtores do evento levaram Davidson ao palco e explicaram à plateia que, possivelmente, haveria alguma agitação vindo de sua mesa durante a noite. Simpático da parte deles, mas seria melhor ter colocado os pingos nos is, para que tudo ficasse às claras: a coprolalia faz parte do seu transtorno, seus tiques são uma reação aos estímulos do ambiente e, mais importante, podem ser extremamente obscenos e derrogatórios, por mais que involuntários.
Enfim, tivessem os produtores assistidos ao filme sobre a trajetória de Davidson, saberiam que não era o momento para eufemismos. O próprio Davidson, ao desvelar sua história, parece não estar muito interessado neles. A vida com Tourette nem sempre é bonita, o que não significa que não mereça ser vivida.
Ou merece? O que exatamente o filme está tentando nos dizer, além, é claro, de informar sobre a condição de Davidson, em todos os seus detalhes mais excruciantes? De todos os filmes da história do cinema já realizados, era em “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, que eu pensava durante a projeção. Assim como “I Swear”, aquela era uma hagiografia interessada única e exclusivamente no martírio do biografado. A reação ao sair do cinema era de dúvida: eu deveria estar me sentindo inspirado? Angustiado? Culpado?
Momentos pitorescos de Davidson são recapitulados pelo filme. Há a vez em que, sendo condecorado pela Rainha Elizabeth, ele mandou a monarca para aquele lugar. Ou quando, ainda na adolescência, em um encontro com uma colega de escola no cinema, gritou uma obscenidade danada na frente da mãe da menina. O cineasta Kirk Jones faz questão de ver a gente se contorcendo na cadeira com as explosões de Davidson, com prazer sádico.
As coisas parecem que vão sossegar quando Aramayo finalmente entra em cena. Pense num sujeito curioso: seu rosto é um amontoado de linhas retas, de quinas que se projetam para a frente de forma desconjuntada. Na boca, duas fileiras de dentes pontudos guardados por lábios retesados. Há um quê de tensão que esses traços guardam, o que não deixa de ser apropriado para o personagem. Mas, mais importante, esse rosto, de alguma forma, emana um calor que traz uma bem-vinda leveza ao projeto.
Essa presença calorosa se mostra imprescindível uma vez que o filme revela sua estrutura. No início de cada cena, John se coloca em alguma situação social nova enquanto descobre mais sobre si mesmo. O final é sempre o mesmo: um tique incontrolável causa algum constrangimento incontornável. E mais uma cena vem chegando.
Com toda a certeza, a vida de Davidson deve ter sido dureza. Mas nem só de acurácia se faz um filme, e o longo desfile de humilhações cotidianas logo se torna um pouco demais. O pobre coitado não tem uma folguinha sequer.
Para cada momento de respiro, há cinco sequências de penúria. A abordagem empregada por Kirk Jones vem diretamente dos manuais de melodrama, mas é como se o sujeito conhecesse apenas um truque e o repetisse ad nauseam. O que parece ser um tiro no pé.
Afinal, se o intuito dos realizadores —- e, dado o envolvimento de Davidson, deve ser mesmo o caso —- é mostrar que a vida com Tourette merece ser vivida, então seria necessário recalibrar todo o projeto. Do jeito que está, o que temos é uma vida apenas infernal. E se Davidson segue entre nós até hoje, então, pelo amor de Deus, deve haver alguma coisinha que valha a pena em meio a todo esse inferno.















Que horror esse texto!!! O cara coloca uma síndrome questionável na frente da dor de pessoas que estão a anos sofrendo com a escravidão. Qual a dificuldade de reconhecer que as vezes a diversidade pode não ser 100% inclusiva, pq se for feita de um jeito para causar dor a outras pessoas não vale a pena. É claro que mais uma vez os negros tem que ceder e serem gentis com o cara branco com a doença da vez. Torcer pra essa doença não vira a desculpas dos racistas da sociedade pós moderna atual!!!