Depois de assistir a este quinto episódio da temporada final de The Boys, intitulado “Tudo ou Nada”, a gente tem que admirar pelo menos a audácia dos roteiristas: na reta final do seriado, eles vêm com um episódio bizarro que ao menos consegue injetar uma boa dose de energia nesta temporada final, que até o momento pode ser caracterizada como “aborrecida”.

“Tudo ou Nada” avança a trama? Até que sim, mas de jeitos peculiares. Porque o episódio é composto de quatro pequenas histórias, cada uma contada pelo ponto de vista de um personagem. Enquanto o segmento tem uma boa dose de preparação de terreno para o final da temporada, ele traz também um bom desenvolvimento de personagens, e para alguns deles esse tipo de coisa é benvinda e poderia ter ocorrido até antes.

Primeiro, temos algumas pequenas tragédias. O episódio começa com a história da Espoleta, na qual vemos que a fé dela no Capitão Pátria supera tudo, até mesmo suas antigas crenças e sua moral. Descobrimos o nome da personagem – Misty Gray – e ela ganha um peso emocional, de novo ancorado pela ótima atuação da atriz Valorie Curry. 

A segunda história também é trágica: descobrimos enfim a história do Black Noir (Nathan Mitchell), um ator que ficou preso num papel só, rodeado de pessoas terríveis – os Sete – e ao longo do segmento, recebe uma chance de escapar. Chance essa que não pode acontecer, e é destruída no melhor estilo The Boys, numa cena bizarra e de mau gosto, mas mesmo assim engraçada. Mitchell também se sai muito bem ao interpretar a nova tridimensionalidade do seu personagem, e teremos que ficar de olho no que o Black Noir vai fazer nos episódios finais da série.

Depois temos o Terror, o buldogue do Bruto, no trecho mais “que diabo é isso?” do episódio. Dar um pouco de tempo de tela ao ponto de vista de um cachorro nos permite ver os conflitos entre Kimiko e Francês e entre Hughie e Bruto por um ângulo diferente, embora não revele nada de realmente novo. E claro, Terror tem uns sonhos… com o Capitão Pátria. Cachorros podem ter sonhos eróticos? Aparentemente, no universo de The Boys, sim.

Já a Mana Sábia, na sua história, arranca umas informações da Ashley, e sua jogada final fica clara de vez: Ela quer ver o circo pegar fogo e a guerra total entre humanos e supers. E acima de tudo, não quer o Capitão Pátria imortal. Mais molho para a refeição dos episódios finais.

E finalmente, temos a famosa reunião do trio de atores de Supernatural, a outra série famosa e muito querida do mesmo produtor executivo e arquiteto de The Boys, Eric Kripke. Soldier Boy e Capitão Pátria seguem na pista do V1 e acabam na casa de um super-herói decadente – que fez filmes para a Sony Pictures! É quando vemos Jensen Ackles reunido com Jared Padalecki e Misha Collins, e junto com eles tem uma outra galera jogando pôquer, que inclui Seth Rogen, Will Forte e Kumail Nanjiani.

É o momento mais divertido do episódio, pois dá para se perceber que essas figuras se divertiram filmando isso. As piadas são inspiradas – a lista dos presos por serem luz-estrelistas é um barato – e, claro, tudo culmina num banho de sangue ao estilo The Boys. Porém, o comportamento do Soldier Boy não deixa de causar estranhamento: no episódio passado ele deixou o Capitão Pátria trancado numa sala para ser envenenado por radiação, e neste aqui o ajuda? Roteiristas, vocês vão precisar explicar melhor isso aqui no próximo episódio.

Enfim, a diversão se encerra numa nota sombria quando o episódio, num círculo, se encerra voltando à Espoleta. O roteiro de Judaline Neira é estranho: se formos pensar bem, ele tem problemas óbvios. A busca pelo V1 não avançou e a série ainda não conseguiu se livrar da sensação de “encheção de linguiça”. Mas também tem momentos tão estranhos e inspirados que o episódio não consegue deixar de arrancar uns sorrisos e nos fazer lamentar um pouco por algumas daquelas figuras, presas num mundo criado pelas suas próprias escolhas.

Estruturalmente, é um episódio bagunçado e estranho, mas também é o mais vivo que The Boys entregou nesta temporada até agora. Em críticas passadas, reclamei que a série não é mais tão divertida quanto costumava ser, e que suas bizarrices não conseguem mais competir com a realidade que o programa busca espelhar pela sua ótica fantástica. Mas neste “Tudo ou Nada”, a série ao menos recebe uma injeção de adrenalina no braço e volta a ser criativa e maluca.