Conhecido como porta-voz de narrativas tradicionais da indústria dos EUA, o Oscar apresenta uma edição animadora em 2026 quando o assunto é diversidade. Além das numerosas atribuições a Pecadores e da presença de indicados latinos em seis categorias, a 98ª edição do prêmio também detém o recorde de mulheres indicadas: 74 ao total, superando a soma de 71 profissionais em 2023.

Durante muito tempo, a cobrança por diversidade recaía sobre as vencedoras nas categorias de atuação. Podemos ressaltar os discursos de Halle Berry em 2002, como primeira mulher negra a vencer a categoria e Patricia Arquette em 2015, a qual destacou a necessidade de equidade salarial.

A partir das denúncias contra Harvey Weinstein e a ascensão do movimento #MeToo em 2018, a Academia se viu diante de um momento determinante na cobrança por maior diversidade no Oscar. Com discursos que saíram do tapete vermelho e chegaram ao palco, a necessidade de um posicionamento sobre valorização, segurança e representatividade feminina tornou-se pauta associada à premiação durante os anos seguintes.

Passados oito anos deste boom, as mulheres representam somente 31% dos indicados para além das atuações. Mesmo alcançando este importante recorde em 2026, os números ainda são desanimadores e reforçam a falta de reconhecimento das mulheres no Oscar.

Comparação com outros eventos

Em comparação com outras premiações, a porcentagem americana ainda é tímida. Segundo a Variety, em 2025, o Festival de Berlim alcançou a marca de 38% dos filmes indicados dirigidos por mulheres, um aumento de 2% em relação a 2024.

O mesmo fenômeno ocorre no César com 43% de indicações femininas em 2026. Assim, a premiação francesa dispara como mais próxima da equidade de gênero, ou mesmo, sobreposição de mulheres entre os indicados.

O Festival de Cannes, entretanto, mesmo com aumento significativo de 12% de mulheres diretoras em 2025, somou apenas 30% de presença feminina. Já no Festival de Veneza, os números oscilam: nos últimos dois anos tivemos seis produções dirigidas por mulheres na categoria principal, número inferior ao recorde de 2020, com oito profissionais.

Com esse panorama é perceptível que mesmo nas premiações com números expressivos o aumento da presença feminina é um processo gradual e oscilante. E aqui vale lembrar que não estamos falando de vitórias, mas, apenas de indicações.

Mulheres dentro e fora das telas

Com essa presença tímida, o Oscar 2026 pode facilmente figurar novos recordes femininos importantes. Autumn Durald Arkapaw, a qual concorre com Pecadores, pode se tornar a primeira mulher a vencer melhor direção de fotografia – categoria esta que até então só possuiu três mulheres indicadas: Rachel Morrison (2018), Ari Wegner (2022) e Mandy Walker (2023).

Nas categorias técnicas, há a incrível indicação do trio Amanda Villavieja, Laia Casanovas e Yasmina Praderas em Melhor Som pelo espanhol “Sirât“. Feito enorme em uma área dominada por homens. Por fim, a iniciante Melhor Seleção de Casting traz quatro mulheres: a favorita Francine Maisler, por “Pecadores” Nina Gold, por “Hamnet”, Jennifer Venditti, de “Marty Supreme” e Cassandra Kulukundis, de “Uma Batalha Após a Outra“.

Destaca-se a diretora de Hamnet, Chloé Zhao, a qual se tornou a 11ª indicação para uma mulher na categoria em quase 100 edições da premiação. Zhao ainda alcança os feitos como segunda indicada mais de uma vez na categoria e a primeira mulher não-branca indicada duas vezes.

Todos esses marcos evidenciam uma caminhada solitária ao topo. Além de ser exceção entre os diretores, Hamnet também é o único longa dirigido por uma mulher a ser indicado na categoria principal da noite. Neste hall de Melhor Filme, Bugonia (Emma Stone), F1 (Dede Gardner), Hamnet (Liza Marshall e Pippa Harris), Uma Batalha Após a Outra (Sara Murphy), Pecadores (Zinzi Coogler), Sonhos de Trem (Ashley Schlaifer), O Agente Secreto (Emilie Lescaux) e Um Valor Sentimental (Maria Ekerhovd Andrea e Berentsen Ottmar) possuem produtoras mulheres.   

Se, por trás das câmeras, o reconhecimento de mulheres é escasso, na frente delas também é necessário muito esforço para reconhecer narrativas com protagonistas femininas. Dos dez indicados para Melhor Filme em 2026, apenas Hamnet, Valor Sentimental e Bugonia são protagonizados por mulheres.

Dentre os outros títulos concorrentes imperam pequenas participações femininas como em Marty Supreme e Frankenstein ou mesmo protagonistas masculinos e histórias puramente vistas aos olhos dos homens (F1).

Corrobora para essa lista a ausência massiva de ‘Wicked: Parte 2’ na premiação – o qual era cotado como um concorrente em categorias principais de atuação e Melhor Filme até técnicas de figurino e maquiagem. Essa ausência total do longa recai em sua campanha promocional e a ótica da ridicularização sobre Cynthia Erivo e Ariana Grande, também é atribuído ao estigma como cantora pop ocupando lugar na atuação. E aqui é preciso reforçar que não questiono o mérito de Cynthia Erivo e Ariana Grande serem ou não indicadas, mas sim do total apagamento de uma produção neste Oscar com a influência baseada na ridicularização de suas protagonistas.

A composição dos votantes

Esse tratamento com mulheres seja na parte de concepção ou narrativa dos filmes contemplados pelo Oscar é um reflexo direto da composição de seus votantes. De acordo com a declaração mais recente da Academia, dentre seus 10.136 votantes ativos, a maioria são homens brancos estadunidenses, sendo a presença feminina 35% do total.

Este ano, marcado pelo recorde de indicações femininas mostra um progresso nessa representação em oito categorias em exceção às de atuação, um aumento de 4% na porcentagem total de mulheres. Esse avanço, entretanto, é ofuscado por dez categorias cujas indicadas diminuíram ou permaneceram as mesmas em relação a 2025.