Acompanhar O Quarto do Filho é encarar que não dá para controlar os caminhos inesperados que a vida toma. Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2001, o longa ratifica a sensação de impotência diante uma situação irremediável, a dor do luto repentino. Uma família obrigada a se redescobrir após a perda e absorver uma nova realidade amarga. Sem rodeios, o filme não utiliza artifícios baratos de manipulação para gerar emoção, mas se comunica de forma áspera.
A direção de Nanni Moretti, também protagonista do filme, se preocupa em oferecer uma experiência crua, apenas retratando a situação como ela é. A cinematografia segue esse tom, estabelecendo bem as interações familiares antes e depois do luto. Aos poucos, o filme conta a rotina do psicanalista Giovanni bem como as suas relações pessoais, principalmente com seu filho Andrea, morto em um acidente trágico. Há um paralelo entre sua vida pessoal e profissional, tudo trabalhado da forma mais natural possível.
O Quarto do Filho não poupa em transmitir algo incômodo como planos detalhes do caixão sendo parafusado, do beijo de despedida no cadáver, da roupa sendo separada, de olhar o quarto vazio. Elementos sutis que mostram a vivência do luto de forma indigesta e ao mesmo tempo realista. Essa decisão em expor esses pequenos momentos acentua a experiência cinematográfica.
Justamente por isso, o retrato do antes e após a tragédia constroem a humanização do psicanalista. Quando ele decide ir até a residência de um paciente ao invés de correr com o filho, exemplifica que o trabalho se tornou a sua prioridade do momento. Nesse caso, essa situação vira uma espécie de “punição” pela sua escolha. Quando o filho morre, o personagem entra em uma profunda crise interna, questionando sua competência profissional. O longa explora bem esse desnorteamento psicológico, com uma cena de Giovanni em um brinquedo que sobe e desce e sua expressão atônita.
Dentre as fases do luto, o roteiro explora muito bem a fase da “barganha”, em que os personagens vislumbram alternativas que poderiam ter evitado o acidente. É um sentimento muito humano e gera uma rápida identificação e ajuda a refletir se Giovanni não negligenciou seu filho em prol de seu trabalho, porém, ressalta que não adianta pensar no que poderia ter acontecido, mas aceitar o destino cruel.
O título do filme demonstra o quarto de Andreas como a âncora das memórias do rapaz. A representação do quarto tem uma função metafórica ímpar para a narrativa. Ele serve como a conexão da família com quem era Andreas. Entretanto, é uma pena que essa analogia soe apenas ilustrativa ao invés de algo mais profundo, sendo pouco utilizada no longa.
No segmento final do filme, há a inserção de uma espécie de “namorada” de Andreas. O objetivo é estabelecer como uma etapa a ser resolvida para seguir em frente. É a última ligação terrena deles com o filho e suas memórias. Embora seja uma boa intenção, o longa se estende demais nessa passagem, forçando uma preocupação um pouco exacerbada. A partida da menina reflete a nova fase da família e uma despedida simbólica.
Ninguém está preparado para o luto e é justamente isso a mensagem que O Quarto do Filho quer mostrar. A narrativa é sobre o processo de adaptação à nova realidade e da imprevisibilidade da vida. Mesmo não tão efetivo em certos aspectos, a sensação é de abordar um tema tão delicado e recorrente da forma mais natural possível. Em suma, é transformar dor e a falta em uma experiência de ressignificação.














