O Prêmio Grande Otelo decidiu ligar o modo aleatório e surpreendeu bastante na edição 2026. Quem esperava um domínio de “O Agente Secreto” semelhante ao ocorrido na temporada passada quando “Ainda Estou Aqui” venceu 13 categorias se deparou com exatamente o oposto na festa da Academia Brasileira de Cinema.
O drama de Kleber Mendonça Filho foi surpreendido durante toda a noite no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Nas áreas técnicas, “O Agente Secreto” venceu apenas três – Efeitos Visuais, Fotografia e Direção de Arte. A surpresa ficou por conta de “Homem com H“: a cinebiografia de Ney Matogrosso ganhou quatro prêmios – Trilha Sonora, Figurino, Maquiagem, Direção de Arte – e ainda levou Filme do Júri Popular.
Era esperado que “O Agente Secreto” retomasse o domínio nas categorias técnicas. A noite, entretanto, estava completamente caótica e surgiu, então, um adversário conhecido de outros carnavais.
“Manas“, responsável por travar um duelo inesperado pela vaga brasileira no Oscar 2026 dentro da Academia Brasileira de Cinema, conquistou Melhor Roteiro Original e Direção com Mariana Brennand, superando em ambas Kleber Mendonça Filho. O longa ambientado no Pará ainda venceu Melhor Atriz Coadjuvante com Dira Paes – aqui, ficou o mistério de Tânia Maria ter sido deslocada para a categoria principal em vez de ficar como papel secundário e perder a chance de ser premiada.
Nada foi mais chocante, porém, do que Melhor Ator: como Ney Matogrosso em “Homem com H“, Jesuíta Barbosa está fantástico, sublime e qualquer adjetivo grandioso que você quiser. Seria justo vencer em qualquer outro ano. Agora, como explicar para a História que Wagner Moura não foi premiado por “O Agente Secreto“? De tantos erros ao longo de 25 anos do Prêmio Grande Otelo, talvez, este seja aquele que será mais lembrado pelo tempo.
Tentando compreender o que passou na cabeça da Academia Brasileira de Cinema, imagino que os votantes tenham pensado que “O Agente Secreto” já teve o reconhecimento suficiente pelas premiações como Oscar, Globo de Ouro e Critics. Diante de um ano extraordinário com tantos excelentes filmes, a ideia foi valorizar “Manas”, “O Último Azul“ e “Homem com H“.
Faz sentido? Faz. Agora, por que isso não aconteceu ano passado com “Ainda Estou Aqui“, ganhador do Oscar de Melhor Filme Internacional? Por que premiar Fernanda Torres e não consagrar Yara de Novaes em “Malu”? Ou então Fábio Assunção em “Motel Destino” no lugar de Selton Mello? Érico Rassi ou Marcelo Caetano em vez de Walter Salles?
O bizarro empate em Melhor Filme entre “Manas” e “O Agente Secreto” parece uma tentativa torta de remediar de qualquer forma um desconforto inevitável. Mais um capítulo da trajetória de um prêmio que, quando parece evoluir, logo encontra um jeito de dar alguns passos para trás.













