Lua Nova e Crepúsculo estão de volta as salas de cinema após 15 anos. Edward Cullen (Robert Pattinson), Bella Swam (Kristen Stewart) e Jacob Black (Taylor Lautner) sem camisa e um tanquinho invejável — e desejável — retornam para um público nostálgico, porém mais maduro e que pode não se deixar levar tanto pelo triângulo amoroso escrito por Stephenie Meyer. Cinematograficamente, “Lua Nova” segue tão difícil de digerir quanto era em 2009, mas agora suas temáticas são mais compreensíveis diante da evolução de discussões sobre saúde mental e toxicidade nos relacionamentos.
Bella completa 18 anos e, numa festividade na casa dos Cullen, as coisas saem do controle, o que leva seu namorado vampiro a terminar o relacionamento com ela e mudar de cidade com a família. A filha de Charlie (Billy Burke) tenta encontrar um novo rumo, enquanto lida com o fim da relação e a ausência de seu amado em Hawkins. Honestamente, a sensação que fica é que essa é a parte mais fraca de toda a construção de Lua Nova, refiro-me ao roteiro e ao diálogo entre este e a direção.
Há claramente uma tentativa de mostrar a moça no fundo do poço e a alternativa que encontra para lidar com a dor da separação. O grande problema em tudo isso é o quanto o filme dá voltas e não consegue crescer, mantendo um ritmo monocórdio que o torna entediante, cansativo e repetitivo. As mais de duas horas de duração se arrastam enquanto vemos o drama de Swan patinar em torno da mesma situação: Bella dorme, grita durante a noite, acorda, toma decisões insensatas que colocam a adrenalina lá em cima, vê o fantasma de Edward, fica feliz, vai dormir e o ciclo se repete mais uma vez. Do segundo ato até a cena na Itália essa é praticamente a vida de Isabella Swan e somos obrigados a contemplá-la enquanto entendemos o quão monótono pode ser a vida de um adolescente mergulhado em seus dramas rasos.
Sinto que o roteiro não consegue encontrar uma grande fuga dessa situação e a direção opta por entregar cenas que seguem sempre o mesmo ritmo ou que não são dignas de uma catarse, embora Chris Weitz (A Bússola de Ouro) ache que está fazendo um grande mousse. A maior prova de inabilidade na produção está logo nos momentos iniciais, na confusa cena de celebração de aniversário de Bella, tanto o posicionamento do elenco, como os planos escolhidos são um tanto desorganizados, sem criar nenhum sentido direto ao público para além de uma grande vergonha pelas atitudes de Edward.
A visão sobre os Quileute
O roteiro e a direção acabam por andar em círculo e mergulhar o filme numa grande barriga — como chamaríamos na teledramaturgia brasileira. Esse é o grande mal de “Lua Nova” e o que enfraquece sua história, juntamente dos efeitos especiais e da imaginação de quem colocou os Quileute como lobos gigantes literalmente, sem pensar em como sua apresentação poderia dialogar com outras representações que esses seres fantásticos já tiveram visualmente.
Há um certo preconceito e teor colonial que está diretamente relacionado a narrativa e que fica evidente diante da conotação visual. A situação fica mais evidente quando os Volturi vão ganhando espaço em tela. Por um lado, a ancestralidade indígena é colocada como algo exótico, atrasado, misterioso e selvagem. Além dos personagens não serem explorados — como o são cada vampiro apresentado —, são os únicos cujo corpo é sexualizado, não é inocente que sejam homens pardos, com um percentual de gordura quase zero que andem descamisados por ai. Enquanto isso, os Volturi claramente representam o Velho Mundo, em suas vestimentas arcaicas em pleno século XXI e o comportamento imperialista diante de outros da mesma espécie e de indivíduos que julgam inferiores — e portanto só existem com objetivo de lhes servir a algum propósito.
Romeu e Julieta e outras narrativas
Tal situação poderia ser melhor explorada e utilizada favoravelmente a narrativa, caso “Lua Nova” se permitisse desvincular-se parcialmente da obra original e seguir por um caminho de plasticidade. Haveria muitas possibilidades de entregar um projeto mais interessante, especialmente quando comparado ao seu antecessor. Um dos exemplos disso está no diálogo que o filme estabelece com Romeu e Julieta. Em determinado momento, Edward afirma que “Romeu matou seu amor por pura estupidez” e não foi isso que o filho de Carlisle (Peter Facinelli) fez quando decidiu abandonar Bella devido as neuroses e inseguranças que lhe atormentavam? Sua fuga e a fake news que se espalha sobre o destino de sua amada também refletem o que acontece quando Romeu precisa fugir para Mântua e tem um desencontro com Frei Lourenço sobre o que há com Julieta. Nesse quesito, Alice (Ashley Greene), que está mais para Cassandra da Ilíada, é uma representação da figura religiosa shakespeariana, uma vez que se mete na vida dos pombinhos e é a responsável, com suas visões equivocadas, de envenenar a vida do casal trágico.
Os próprios Volturi são retratados espelhando os vampiros escritos por Anne Rice. O filme tenta dialogar com uma perspectiva mais clássica trazendo a voga as alegorias religiosas e a perspectiva na qual vampiros são seres condenados. Edward se enxerga dessa forma, como se sua vida fosse um purgatório e ele está condenado ao inferno, de onde provém sua inveja de Romeu e o suicídio cometido pelo jovem Montecchio. Enquanto Bella enxerga a eternidade como uma bênção cheia de possibilidade. Para ela, é a oportunidade de ser jovem para sempre. Para ele, uma tragédia. Estamos diante de um personagem que se coloca como um herói trágico: um nobre e virtuoso que, devido a um erro de julgamento, perde seu amor resultando em sofrimento e ruína.
O luto pelo relacionamento
Em meio a tudo isso, “Lua Nova” bebe da intensidade dos relacionamentos amorosos adolescentes. Bella mergulha em depressão com o encerramento do seu contato com Edward — visualmente este é o momento mais interessante do filme, quando vemos a vida passar diante dos olhos da jovem que está alheia, presa em seu sofrimento e na saudade de seu amado. A montagem do momento da janela é certeira em passar a ideia e a sensação de alguém que passa pela doença emocional.
Sua busca por adrenalina é um pedido de socorro para tentar sair do estágio emocional e mental que se encontra. A dor é a lembrança de que alguém que você amou foi real. O filme acerta bastante em evidenciar o processo de luto da relação, a ausência de sabermos o que acontece com Edward também contribui para o sentimento da protagonista de ter perdido uma parte de si mesma. Por isso, o momento em que pula no mar — e Alice Frei Lourenço se engana no que vê — é uma forma de libertação para a dor que está sendo vencida, especialmente ao fazer isso em um local que remete a memória e o sentimento precioso que cuidou e não lhe assombra mais.
É preciso enxergar o lugar de onde parte o seu sofrimento e a posição que ela e Edward ocupam no momento de separação e como Jacob se torna o seu refúgio e o acolhimento que ela precisa para continuar vivendo. Entendo sua dor. Estamos falando de uma menina de 18 anos que vive uma desilusão amorosa, enquanto Edward é um homem que aparenta ser jovem, mas já viveu o bastante para estar maduro e saber o quanto suas palavras duras e cruéis afetariam a jovem namorada. Nesse processo, Jacob surge como escape pra lidar com a ausência sentida; Bella tem um comportamento egoísta em relação a ele, que, por sua vez, se comporta de forma muito boba, o que é aceitável, considerando que ele é um menino de 16 anos.
“Lua Nova” é um projeto interessante, porque apresenta muitos elementos que poderiam dar certo e construir uma discussão primorosa sobre relacionamentos, espelhamentos culturais e a própria adolescência, mas se perde em uma narrativa cansativa, que anda em círculos e se apoia em dualismos preconceituosos. Um filme que poderia decolar, mas fica no quase.















