Tendo um indivíduo comum, no exercício rotineiro de sua vida, recebido a notícia da morte de sua mãe, a reação esmagadora e natural seria de confusão e assombro com tal acontecimento. Isso, porém, não ocorre com Meursault (Benjamin Voisin), protagonista de O Estrangeiro. Sua indiferença e ausência de emoções revelam muito mais do que um rapaz de aparente insensibilidade: elas expressam uma consciência de existência que percorre toda a narrativa.
A adaptação da clássica e aclamada obra do escritor Albert Camus, desde sua partida, busca traduzir o discurso cru e honesto do texto literário. Proposto a contar a trajetória de Arthur Meursault, ao começar de forma súbita, somos logo apresentados ao personagem sendo encarcerado em uma prisão escura e lotada após cometer um crime desconhecido, logo, entrecortes, voltamos no passado daquela história com o rapaz recebendo um telegrama a informar sobre a morte da mãe. A maneira que esta notícia é tratada por Meursault, desde a tomada de conhecimento, o aviso de afastamento ao chefe do trabalho e a presença no velório da mãe são repletos de momentos alheios e carregados de frieza de sua parte dado um episódio tão marcante que uma pessoa pode enfrentar na vida.
Essa natureza de concepção de O Estrangeiro é proposital e nos deseja capturar de imediato naquele estranhamento. A história, tanto no livro, quanto no filme, faz questão de apresentar o protagonista como figura distante, de uma apatia quase latente confrontado às direções do mundo. No livro, temos a visão da obra em primeira pessoa e esta é crucial para acompanhar e mergulhar na mente de Arthur Meursault, pois sido visto como um sujeito de tanta impassibilidade, abriga dentro de si uma inquietação dura e expansiva. As linhas encontradas nas páginas remetem ao ser inundado pelo caráter de desassociação para com a vida: são olhares e pontos descritos pelo próprio homem a andar vago e aludido pela ausência de sentido, portanto, Meursault seria a personificação de um mero “homem absurdo” definido pela escrita aguda de Camus.
Nessa lógica, para uma compreensão maior desse exercício, se faz preciso chegar no Absurdismo ou Teoria do Absurdo desenvolvido e manifestado principalmente pelo autor de O Estrangeiro. Para o escritor e filósofo, a existência do indivíduo não deve ser condicionada a viver em busca de algum sentido próprio para ser livre, pois isso o aprisionaria e o faria refém das próprias condutas morais e éticas nesse querer de aceitação. Nada possui sentido, de fato, então apelemos ao absurdo. Assim, Camus apresenta o conceito de revolta como expressão máxima, ou seja, abraçar todo esse cenário irracional é a melhor maneira de se obter liberdade pessoal, encarar as dores, instituições e ordens da qual o mundo ousa contemplar com suas estruturas perversas.
Ademais, o cineasta François Ozon não se restringe a navegar por territórios fáceis nas cenas de seu filme optando em contar quase na íntegra uma adaptação crua e sincera da obra original. Se o livro permite as linhas narrativas todas do ponto de vista do narrador que conta e expõe todo seu pensamento, Ozon decide assumir o olhar como forma de interpretação, de movimento, de consciência. Além disso, a construção da história em uma Argélia dos anos 1930 (época colona da França), assim como no material original, configura um lugar em que a colonização avança a tal ponto que os árabes são considerados estranhos em seu território. Voisin entrega um trabalho cerebral e seguro onde o gestual e o mirar preenchem o espaço das poucas palavras ditas por Meursault; há de se sentir ali o peso da indiferença e de como todo aquele absurdo o faz dele refém das consequências.
A produção se dispõe de ótimo alinhamento técnico a valer, principalmente, da direção de fotografia de Manuel Dacosse que reproduz uma estética monocromática, bem como o sentimento opaco e esvaziado pertencente à história e muito bem representado pelo preto e branco das imagens. Tons sombreados coexistem o tempo todo dentro das cenas de O Estrangeiro sendo uma espécie de personagem vivo ao ilustrar o senso inerte do protagonista que, em muitas vezes, tem o rosto engolido por uma sombra que divide a sua figura criando rimas visuais sobre o seu estado consciente.
Para andarilhos de primeira viagem, esse contato pode soar demais frio ou confuso, afinal de contas, Meursault não é um personagem agradável, nem fácil de se identificar. Nem era para sê-lo. A retórica camusiana invade a nossa mente sem pedir licença e nos seduz a buscar uma interpretação bruta, sem idealizações ou concretizações, forçando a sermos críticos por natureza; a ideia de desprender-se das emoções e aceitar uma falta de sentido, é o que torna essa estrada ainda mais instigante. “Perdi o hábito de me questionar”, cita o rapaz em dado instante. O absurdo vivido por Arthur Meursault é tão somente a maneira de desvirtuar-se e o equilíbrio de um mundo inteiro de expectativas sociais e morais que são exigidas, mas não são próprias de si e de sentido, logo, resta existir sem escolher.
Desse escopo, entendemos ser Meursault “estrangeiro” de seu próprio mundo, pois não obedece às convenções sociais e trilha um caminho de indiferença definitivo. O sujeito possui um emprego, inicia um relacionamento, pessoas passam por seu caminho, e cada elemento desses é visto com a devida consideração mínima. O seu processo existencial é permanente; sem conseguir compreender o comportamento do qual exerce suas ações, este segue sendo fiel ao absurdo de se manter sobre a vida. “Não tenho certeza do que me interessa, mas tenho certeza do que não me interessa”, aplica o personagem vivido por Voisin em certo ponto do filme ao recusar a ajuda de um padre. Quando comete o crime que mudará sua vida, o faz de maneira impulsiva e alheia justificando o ato como questão mundana que se esvai facilmente, o que evidencia a ausência de sentido em tudo.
A contar tantos aspectos, O Estrangeiro é ótima e grande adaptação da singular obra de Albert Camus em que enobrece o documento literário e se vale como belo projeto audiovisual. A transposição desta obra admirável se presta com honestidade ao não atenuar o carregado valor filosófico e se firma como interessante entrada de apoio ao saber do absurdismo.














