Os Pestes, nova animação da Netflix, apresenta uma base muito sólida, mas embarca em uma vulgaridade excessiva e uma narrativa repleta de elementos batidos e previsíveis, minimizando a sua aura excêntrica. O filme é uma adaptação do conto The Twits, de 1980, escrito pelo renomado autor britânico Roald Dahl, conhecido por diversas obras literárias como A Fantástica Fábrica de Chocolates, Matilda e O Fantástico Senhor Raposo.
Por mais que se trate de um produto destinado às crianças, o longa carrega uma intenção satírica, principalmente política dentro do roteiro, porém, a narrativa decide ir em um caminho seguro e didaticamente confortável. Toda a acidez proposta, como a manipulação da população da cidade, a exploração dos animais, maus-tratos às crianças são adocicados para algo mais leve e familiar. Nesse ponto, a adaptação recorre a temas batidos como família, gentileza, abandono, a importância da diversão e amadurecimento, trabalhados da forma mais trivial possível, sem espaço para uma abordagem diferenciada.
No conto original, havia toda uma energia caótica e subversiva, com o foco principal no casal de vilões e todas as suas ações desumanas. Eles representam a mesquinhez, egoísmo e maldade do ser humano. Na animação, essas características e atitudes são mais suavizadas, porém, eles só demonstram um traço de personalidade, sem um pingo de profundidade.
Outra diferença é que os Pestes dividem o protagonismo com duas crianças, mas que seguem uma linha apática e pobre de desenvolvimento, com os arcos narrativos previsíveis vistos em diversas animações; aquela velha história da criança em busca de ser amada e de ter uma família. O problema nem é tanto apelar para clichés convencionais, mas não promover algo novo para se destacar.
Além disso, o filme se torna repetitivo ao explorar toda hora os vilões pregando peças em si mesmo, com uma vulgaridade exagerada que não é bem dosada, deixando Os Pestes cansativo. O teor cômico recorre a piadas sobre flatulências, nojeiras e constrangimento toda hora. Parece que o longa só tem a oferecer isso ao invés de trazer uma discussão mais acentuada sobre os apontamentos do conto original.
A animação tecnicamente tem uma estética suja e grotesca, bem condizente com o conto original, funcionando como um atrativo muito positivo, seja nos designs dos personagens como na construção da cidade. Entretanto, algumas movimentações dos personagens ficam um pouco travadas, tirando a fluidez dos movimentos, parecendo gestos meio robóticos.
“Os Pestes” não faz justiça à base do conto de Dahl, preferindo apostar em uma história previsível e sem brilho algum. Ao invés de expandir ou melhorar diversos pontos do conto, a adaptação suaviza a sua narrativa para se encaixar em um padrão convencional, tirando toda a veia singular e a identidade do autor para uma animação insossa e banal.













