Sabe aquele ditado popular: ‘de boas intenções, o inferno está cheio’? Pode ser cruel, eu sei, mas, cabe à perfeição para definir o fraquíssimo “Por que Você Não Chora?”. Escolhido como o filme de abertura da mostra competitiva de longas-metragens nacionais do Festival de Gramado 2020, a produção brasiliense dirigida e roteirizada por Cibele Amaral não se encontra em um único momento ao abordar de forma desconjuntada diversas temáticas sobre saúde mental.  

“Por que Você Não Chora?” acompanha a história de Jéssica (Carolina Monte Rosa), uma jovem introspectiva, finalista do curso de Psicologia e responsável por fazer o acompanhamento terapêutico de Bárbara (Bárbara Paz), uma mulher com transtorno de personalidade borderline (limítrofe), tentando se reaproximar do filho. Quanto mais busca ajudar a paciente e se envolve nos problemas dela, Jéssica lida com traumas do passado e tendências suicidas.  

São temas claramente importantes como a frase de abertura sobre uma pessoa se matar no Brasil a cada 40 segundos deixa muito claro, especialmente, em um momento tão angustiante como este da pandemia da COVID-19. Debater o suicídio assim como problemas psicológicos são questões urgentes ainda mais em um país que ainda trata a terapia como algo somente para malucos. Porém, os equívocos cometidos tanto na abordagem quanto na construção confusa da história fazem “Por que Você Não Chora?” beirar o desserviço sobre o assunto. 

De longe, o maior pecado do roteiro é tentar colocar diversas situações, cada uma complexa por si só, dentro do mesmo balaio, sendo incapaz de desenvolver bem nenhum deles. Inicialmente, a história aborda o universo solitário de Jéssica rompido apenas pela relação dela com a irmã de oito anos; depois, tudo se transfere para Bárbara e o transtorno Borderline para, finalmente, voltar à Jéssica na reta final. Ainda há questões relativas a alienação parental e possíveis abusos envolvendo o passado da protagonista que não ficam muito claros na trama. Esse excesso de temáticas gera lacunas graves para o desenvolvimento das personagens e, consequentemente, daquilo que aborda “Por que Você Não Chora?”.  

Para piorar, há uma superficialidade incômoda que paira sobre o projeto. Acreditando ter como missão ser uma obra extremamente explicativa sobre suicídio e transtorno Bordeline, Cibele Amaral parece não ter confiança na própria história e naquilo que as personagens podem representar sobre o tema. Logo, temos as presenças das personagens de Cristiane Oliveira e Elisa Lucinda (sempre bom ver as duas em cena) com a função didática de explicar constantemente aquilo que acontece na dinâmica entre Jéssica e Bárbara. Visualmente, “Por que Você não Chora?” também é uma surra de obviedades desde a casa escura e fechada de Jéssica, semelhante a uma prisão à la “O Poço”, aos figurinos das duas, um mais sisuda, mangas longas e a outra mais despojado, rock n´roll. Por fim, a metáfora da goteira pingando na cama é tão sutil quanto um míssil disparado nos filmes do Michael Bay.

Diante deste cenário desolador, Carolina Monte Rosa e Bárbara Paz fazem um esforço digno de aplausos para tentar, pelo menos, salvar da nulidade “Por que Você Não Chora?”. Ainda que sabotadas com momentos cafonas (Jéssica rindo sozinha na fila do supermercado e o joguinho de pedras no lago são de rir de constrangimento), as duas atrizes exploram bem o mistério de uma e a intensidade da outra para criar sofrimentos diferentes e palpáveis para o espectador. 

Com subtramas esquecidas no meio do caminho (o drama em relação à guarda do filho de Bárbara fica sem respostas) e abordagens para lá de questionáveis sobre a temática (o estereótipo da pessoa calada e introvertida como potencial suicida ou a sensação de ser algo de toda família de Jéssica ter graus diferentes de depressão, falha de um roteiro incapaz de explorar melhor a personagem), “Por que Você não Chora?” surgiu como um projeto nascido das mais boas intenções, mas, que gera uma obra, no mínimo, problemática. 

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