O olhar de um estrangeiro para o mundo sórdido que fez de Donald Trump um símbolo talvez seja o que há de mais intrigante em “O Aprendiz”. Ao falar da ascensão do ex (e talvez futuro) presidente dos Estados Unidos como empresário entre as décadas de 1970 e 1990, o diretor iraniano-dinamarquês Ali Abbasi pinta um retrato de um país que celebra a meritocracia disfarçada de história de sucesso.
Em “O Aprendiz”, esse sucesso não é apenas uma questão de sobrenome ou de dinheiro, e sim, de poder. O jovem Donald é atraído como um ímã pelas frases de efeito de Roy Cohn (Jeremy Strong), um advogado que se torna mentor do protagonista de forma que remete ao encantamento de Mark Zuckerberg com a simples ideia de pertencer a um clube exclusivo de Harvard em “A Rede Social”, de David Fincher.
A filosofia mercenária de Cohn não encanta apenas a Trump: Abbasi dedica preciosos minutos do filme ao personagem de Strong, ator que, novamente inserido em um contexto de destruição pelo poder, faz algo totalmente diferente da tragédia de Kendall Roy em “Succession”. O olhar perdido dele na série dá lugar à firmeza de quem dá asas a um monstro, e que, com a mesma facilidade que o leva ao Olimpo, também é descartado e humilhado quando não tem mais o que oferecer.
A subida de Trump como um empresário de sucesso que se torna, também, uma figura pop, é acompanhada por uma estética privilegiada pela gama de referências que pode colocar na tela, sobretudo dos anos 1980. Dos créditos de abertura que emulam seriados daquela década até a fotografia que remete a uma fita VHS, passando pelas aparições de figuras como Andy Warhol e Liberace, tudo é um convite para que Abbasi se debruce sobre o vazio cultural e a fixação de Trump com o “ser” e o “ter” sobretudo na Era Reagan, marcada pelo retrocesso.
O Trump de Abbasi é uma criatura de Frankenstein violenta e motivada pela ambição sem limites. Um papel que é mais uma oportunidade para o romeno Sebastian Stan fazer muito bem mais um tipo desprezível da vida real, após o Tommy Lee de “Pam & Tommy” e o Jeff Gillooly de “Eu, Tonya”. Assim como Abbasi, o Stan não nasceu e nem foi criado nos Estados Unidos, então sua escalação também soa como um bom afronte a alguém que valoriza tanto o que é “feito na ‘América’”.
Para muita gente, esse filme pode soar mais amargo com um possível retorno de Trump à Presidência. O futuro dele depende também de como vai se desenrolar a campanha do republicano, mas, independente do resultado da eleição, “O Aprendiz” se sustenta como um filme sobre o tempo presente no qual foi feito e que também sabe olhar para trás não apenas sob o verniz do simples relato histórico. Abbasi não se furta de mostrar Trump como um abusador capaz de pisar em qualquer pessoa para chegar aonde quiser – e, como o mundo celebra figuras como ele, ele vai chegar.













