Natal Amargo marca o retorno de Pedro Almodóvar aos filmes falados em espanhol após O Quarto ao Lado.  Lançado no Festival de Cannes 2026, a obra conta com presenças de atores marcantes na filmografia do diretor como Rossy de Palma, Aitana Sánchez-Gijón, Milena Smit e Leonardo Sbaraglia. A grande questão é que o regresso é marcado tanto pelas características positivas do cineasta, quanto pela mornidão que o acompanha nos últimos tempos.

Almodôvar bebe da autoficção para contar duas narrativas paralelas, a de Elsa (Bárbara Lennie) e de Raul (Leonardo Sbaraglia). Ambos trabalham com cinema (seria uma indicação do cineasta para si mesmo?!) e vivem conflitos internos. A diferença reside no fato de que Raul é quem escreve a história da amarga Elsa, o que acena para o título da produção. Curiosamente, em “Natal Amargo”, o roteiro é construído em torno de que seus personagens se apossem da narrativa de alguém próximo para criar uma terceira história; é assim que Raul, após anos sem encontrar uma voz para suas produções, vê na justificativa de Mônica (Aitana Sanchéz-Gijón) para se afastar do trabalho como sua assistente, uma oportunidade de reencontrar sua própria voz, utilizando as experiências da companheira de ofício.

O que o diretor espanhol faz aqui nada mais é do que o uso da metalinguagem. Por um lado, ao creditar seus personagens como profissionais da industria cinematográfica e lhes apresentar dilemas impostos pelo mercado contemporâneo. A desvalorização do mainstream de profissionais que fazem produções experimentais, obrigando muitos a migrarem para a publicidade está entre eles, assim como o fato de muitos cineastas consagrados realizarem produções diretamente para os serviços de streaming. Por outro lado, essa metalinguagem grita de referências diretas que o cineasta faz ao seu próprio cinema. A participação de Rossy de Palma, o vermelho vivo ao lado de um azul tão caliente quanto o rublo e as relações construídas são exemplos gritantes disso. 

Em meio a tudo isso, o aspecto mais característico do universo almodovariano em Natal Amargo repousa no paralelismo das narrativas. Almodóvar é mestre em contar histórias separadas que se cruzam em algum momento nos trazendo uma revelação potente e ensurdecedora e é neste ponto que acontece a grande frustração deste novo projeto, porque aquilo que nos é revelado não tem a potência necessária para nos fazer delirar como em Fale com Ela e A Pele que Habito, por exemplo. 

Há muita dor, angústia e culpa atravessando as personagens dessa narrativa, mas nunca a ponto de nos fazer ter empatia o suficiente como em Dor e Glória e Tudo sobre minha mãe. A sensação que tenho é de que há uma apatia que domina Raul e Elsa e isso faz com que os personagens se tornem sem brilho. Raul é egoísta e faz com que tudo gire ao seu redor, sem se importar em como isso ferirá ou está atingindo, já no presente, aqueles que lhe orbitam. Elsa está mergulhada em tanta dor e culpa que não se permite devolver a Bonifacio (Patrick Criado) a atenção que ele lhe confere, deixando o personagem eclipsado por si mesma. 

Ao final, o que Pedro Almodovar nos entrega é mais uma reflexão sobre a autoficção. Existe uma discussão no campo literário sobre o recorte de gênero a qual ela pertence, se estaria mais para um romance ou para uma biografia; daí termos como escrita de si e escrivivência estarem ganhando espaço teórico e nas rodas virtuais — e parecem muito com o que o cineasta espanhol faz aqui com sua metalinguagem. 

Independente se estamos mais diante de um romance do que uma biografia, o que Almodóvar faz é colocar mais um ponto de reflexão nesse pleito, ainda que de forma leve e superficial. E assim nos rende a cena mais interessante de Natal Amargo: a discussão ao final da tarde sobre como você se reconhece na obra e até qual ponto a situação fere ou não a sua privacidade. Quer seja para o melhor ou o pior de seu universo, só Almodóvar nos proporciona encontros e discussões novelescas, fugazes e divônicos desse jeito.