Eis que, do outro lado do mundo, chega um terror que entende que poucas coisas são mais assustadoras do que estar à procura de algo no quadro que não sabemos o que é. Pior: algo que não podemos ver, mas podemos ouvir.

Esse é o ponto de partida do sul-coreano “Ruídos”: há um fantasma no apartamento, mas só você pode ouvi-lo. A diretora Kim Soo-jin (famosa atriz em seu país, aqui fazendo sua estreia na direção) parte daí para criar diversas brincadeiras com o ponto-de-escuta: microfones empunhados como espingardas, medidores de ruído, captadores escondidos. Se tudo é barulhento, então o monstro pode vir de qualquer lugar.

É claro, há algo aqui sobre a alienação no caótico mundo capitalista — portanto, o feijão-com-arroz do japonês Kiyoshi Kurosawa, que recentemente tratou do som como manifestação maléfica em seu “Chime”. Em “Ruídos”, uma das brincadeiras com o ponto-de-escuta, logo no início, já nos coloca essa toada: um letreiro digital alerta para o nível de ruído em uma fábrica; os operários usam pesados abafadores sobre as orelhas. Apropriadamente, o som do filme se torna abafado: estamos sob o ponto-de-escuta dos trabalhadores dali.

É quando encontramos Ju-young (Lee Sun-bin) na linha-de-produção. Estranhamente, ela não usa abafadores. Logo fica explicado o porquê: ela é surda, o que descobrimos quando, após colocar seu aparelho auditivo, o som retorna ao filme. Estávamos sob seu ponto-de-escuta esse tempo todo e nem percebemos.

Em uma metrópole de gaiolas verticais, caberá a Ju-young investigar o sumiço de sua irmã, desaparecida após enlouquecer com os ruídos do seu apê. Acontece que todos os moradores do prédio estão de saco cheio do barulho alheio. Trata-se, portanto, de uma espécie de “O Som ao Redor” versão terror (apesar de o filme de KMF já ser, na prática, um filme de terror).

O longa se sai muito bem enquanto procura desculpas para exercitar a criatividade do design sonoro. A estratégia é eficaz: são tantos detalhes na trilha que os momentos de silêncio se tornam os mais assustadores. Mas “Ruídos” perde o embalo sempre que precisa dar alguma propulsão à história, desdobrar seus mistérios. Fica difícil não cair nos lugares-comuns: a morte do inquilino anterior, o vizinho suspeito, o policial cético, a síndica insuportável.

Talvez fosse melhor se “Ruídos” se abstraísse dessas preocupações mundanas —- se o filme surfasse na onda do som e nos mergulhasse em uma vibe, mais do que em uma trama (há indícios dessa direção: o uso do celular como dispositivo sobrenatural parece ter saído diretamente de “Personal Shopper”, do Assayas). Do jeito que está, falta algo. Mas há sustos e momentos horripilantes o suficiente para fazer a escuta valer a pena.

Autor

  • Marcos Faria

    Marcos Gabriel Faria é artista visual e cineasta baseado no Rio de Janeiro, RJ. Graduado pela UFF em Cinema e Audiovisual, é um dos criadores, ao lado de amigos da graduação, do blog Conversas de Bandejão, para o qual também contribui com textos sobre cinema e arte em geral.

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