The Chronology of Water marca a estreia da atriz Kristen Stewart na direção, e percebe-se que foi um trabalho de amor para ela e os principais envolvidos no filme. É uma obra crua e emocionalmente forte da atriz que há muito deixou para trás seus dias de Crepúsculo, assim como seu colega Robert Pattinson. Ela sempre foi uma intérprete interessante e demorou um pouco para as pessoas se darem conta disso.
O filme é baseado na história real da escritora Lidia Yuknavitch, que depois virou livro autobiográfico de mesmo nome. Na juventude, ela foi uma nadadora com uma promissora carreira no esporte, mas sofria abuso sexual nas mãos do próprio pai, e isso a levou a deixar a natação e a mergulhar nas drogas e no sexo desenfreado. Anos depois, ela conseguiu transformar seus traumas em literatura.
Uma coisa não se pode dizer da Kristen Stewart diretora: que ela foi acanhada e contida na sua estreia. Enquanto muitos atores adotam um estilo discreto e quase impessoal quando passam para o outro lado da câmera, Kristen filmou The Chronology of Water em 16 mm com seu diretor de fotografia, Corey C. Waters, e tentou de fato traduzir cinematograficamente os escritos e poemas da autora.
Às vezes, o resultado é brilhante, como numa cena em que a protagonista se masturba e, após o orgasmo, numa transição inspirada, usa sua mão molhada para desenhar uma carinha sorridente numa janela. A água e líquidos como sangue são usados diversas vezes como metáfora. As cores são dessaturadas, esmaecidas, e The Chronology of Water usa e abusa dos closes – às vezes, incômodos.
Em outros momentos, porém, os resultados dessas invenções poéticas mais atrapalham do que ajudam: os primeiros minutos do filme, com uma montagem fragmentada, deixam tudo meio confuso e demora um pouco para o espectador se orientar. Essa estratégia de fragmentação diminui um pouco, mas se mantém pelo resto do filme, e às vezes a confusão ainda permanece – a personagem de Thora Birch aparece do nada, e levamos um tempo até descobrir quem ela é na história.
Mas a Kristen Stewart diretora também é sagaz o suficiente para ancorar seu filme no forte desempenho de Imogen Poots como Lidia. A atriz dá tudo de si e mais um pouco no papel, e é sua força e seu olhar que carregam a experiência. E a diretora usa o brilho especial e estranho que Imogen sempre possuiu de forma efetiva, para humanizar Lidia ainda mais. Além dela, também merece destaque um inspirado Jim Belushi no papel de Ken Kesey, o escritor – e malucão – lendário autor de Um Estranho no Ninho, que serviu de mentor para a autora no começo da carreira.
No fim das contas, The Chronology of Water é um trabalho sensível que, mesmo imperfeito – com pouco mais de duas horas, o filme parece se estender mais que o necessário – revela uma nova faceta da sua diretora, e aponta novos e interessantes caminhos para sua carreira. É uma história de abuso, sofrimento e redenção pela arte, e resultou num filme bonito em suas imperfeições, aparentemente em sintonia com o espírito da sua biografada.












